28
Nov
08

Curta-metragem

Ao lume, as imagens acorrem sem esforço: trata-se de tornar real um gato, um gato que me entrou pelo sono. É inverno, veio com a chuva. Aproximou-se do fogo sem sequer olhar para mim, sacudiu algumas gotas de água e enroscou-se na tijoleira quente, tendo caído no sono como pedra no poço. Contemplava aquele novelo desluzido e fremente com inveja – adormecera tão facilmente! Também ele sonha, e no seu sonho há um dia de sol, e pardais na eira, e medas de palha. Espreguiçava-se, o corpo em arco, sobre as patas todas. É preto, pintado por Manet. Devo ficar com ele, os gatos pretos dão sorte, embora sejam ariscos. Não lhe tirava os olhos de cima, começava a considerá-lo uma companhia. Ocasional, leve, descomprometida. Uma afloração da pele mais do que enredos de espírito. De repente, aquele pequeno companheiro de algumas horas estremeceu, saltou sobre um pardalito que se lhe escapa de entre as pernas, corre atrás dele, não pára de correr, regressa à chuva. E eu, ao lume.

 

1985

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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