21
Fev
09

Ode a Guillaume Apollinaire

No meio dos anjos desembarcados em

Marselha,

nas margens do Sena, ao ouvido de Marie,

os olhos ardidos de ternura,

leio os teus versos, sem piedade de ti.

 

Leio os teus versos neste Outono breve

onde passeiam lentos com a água

Lou e Ottomar;

a esperança é ainda violenta,

mas estamos cansados de esperar.

 

Leio os teus versos no cemitério

onde as crianças indiferentes

brincam à roda da tua sepultura;

e choro, ao lado de Madeleine,

órfão de ti, órfão de aventura.

 

E tu passas, meu artilheiro,

apaixonadamente como um rio

ou touro de amor até aos cornos:

Orfeu cheirando a pólvora e a cio.

 

Passas, e seguem-te saltimbancos,

galdérias, vadios, ciganos e anões;

Annie – ou Jeanne – surge da bruma,

e de longe atira-te uma rosa,

talvez de lume, talvez de espuma.

 

Passas, e entras no paraíso

no meio de adolescentes tresmalhados;

Martin, Gertrude, Hans e Henri,

com ervas ainda nos cabelos

cantam coplas de putas e soldados.

 

Oh Madeleine, não tenhas piedade:

os mortos somos nós, aqui sentados,

com a noite nos ombros e embalando

a angústia nos braços decepados.

 

1949

 

 

Sobre Guillaume Apollinaire…

 

Poeta e crítico francês (1880- 1918), nascido em Roma, de nome verdadeiro Wilhelm Apollinaris de Kostrowitzky. Depois de uma infância e adolescência vividas entre vários países da Europa, instala-se em Paris a partir dos 20 anos, interessa-se por literatura e política e inicia a escrita novelas eróticas para sobreviver. Nos anos seguintes, viaja até à Áustria, Alemanha e Inglaterra. Entre 1902 e 1907 publica contos e poemas em várias revistas (incluindo a portuguesa O Portugal Futurista). Entre os seus amigos de Paris dessa altura, contam-se Picasso, Rousseau e Delaunay, entre outros.  Estreia-se como poeta em 1909, com o aparecimento da sua primeira colectânea, L’Enchanteur Pourrissant , cuja temática aludia ao aprisionamento do mago Merlim dentro de uma gruta, pelas artes mágicas de Morgana. Seguem-se, entre outras obras, Le Bestiaire ou Cortège d’Orphée (1911) e Alcools (1914), trabalho marcado pela supressão de todos os sinais de pontuação, o que na época constitui uma inovação e revela o seu espírito modernista. Em 1914 alista-se no exército francês e parte para a guerra. Para não perder a veia poética, troca abundante correspondência com os amigos e a mais recente paixão não correspondida, Louise de Coligny-Châtillon (ou «Lou», como lhe chama nos poemas). Deois da guerra, volta ao trabalho em Paris: leva à cena a peça Les Mamelles de Tirésias (obra que anuncia o chegar do “Surrealismo”) e publica Calligrammes. Em 1918, casa com Jacqueline Kolb (a «linda ruiva» do último poema de Calligrammes), mas enfraquecido pela ferida de combate, morre em Novembro desse ano, de gripe espanhola. Tido como o criador do termo ‘surrealista’, tinha apenas trinta e oito anos por altura da sua morte. (fontes: assirio.com, infopedia.com)

 

 

 

 

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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