Arquivo de Março, 2009

31
Mar
09

Canção para minha mãe

Uma mulher a cantar

de cabelo despenteado.

 

(Era o tempo das gaivotas

mas o mar tinha secado.)

 

Pelos seus braços caíam

frutos maduros de Outono,

 

pelas pernas escorriam

águas mornas de abandono.

 

(Uma criança juntava

o cabelo destrançado.)

 

Gaivotas não as havia

e o mar tinha secado.

30
Mar
09

A luz do chão

Sem nenhuma razão a voz rompia,

a rasteirinha voz tão rente à vida

que se confunde com a luz do chão,

a luz de Março rastejando ainda.

29
Mar
09

A uma fonte

Fonte pura, fonte fria…

(Onde vais, minha canção?)

Fonte pura… assim queria

que fosse meu coração:

fluir na noite e no dia

sem se desprender do chão.

28
Mar
09

Sobre a mesa a fruta arde

Sobre a mesa a fruta arde: pêras,

laranjas, maçãs, pressentem

a íntima brancura

dos dentes, o desejo represado,

 

o espesso vinho de vozes antigas;

arde a melancolia ao inventar

outra cidade,

outro país, outros céus onde lançar

 

os olhos e o riso: deita-te comigo,

trago-te do mar

a crespa luz da espuma,

nos flancos este amor retido.

27
Mar
09

Quando em silêncio passas entre as folhas

Quando em silêncio passas entre as folhas,

uma ave renasce da sua morte

e agita as asas de repente;

tremem maduras todas as espigas

como se o próprio dia as inclinasse,

e gravemente, comedidas,

param as fontes a beber-te a face.

26
Mar
09

A claridade coroa-se de cinza

A claridade coroa-se de cinza, eu sei:

é sempre a tremer que levo o sol à boca.

25
Mar
09

Homenagem a Raul Brandão

O Sal da Língua agradece as mais de 10000 visitas e inaugura hoje a prosa de Eugénio neste espaço de todos.

 

Almocei no Cerco do Porto e como o dia estava bonito peguei no Miguel e fomos até à Foz. O miúdo nunca andara de eléctrico, além disso eu queria mostrar-lhe a casa onde nascera Raul Brandão e a Praia dos Ingleses, antes que as ondas a levassem. O Gil deixou-nos no Infante e viria esperar-nos lá para o fim da tarde. Como se no outono o mar já não merecesse o olhar de ninguém, o eléctrico ia quase vazio. Apontei ao Miguel o casario cigano de Miragaia, os estaleiros sonolentos de Massarelos, a Cantareira reduzida a um estendal de roupa ao sol, as gaivotas do Cabedelo, tão próximas e confiantes que terminaram por entrar num poema meu.

Descemos no Passeio Alegre; ali estava ainda a loja do Augusto onde se vendia, de fabrico caseiro, a mais perfumada compota de framboesas; aqui, a rua onde crescera o Raul Brandão, a casa onde nasceu, na qual ninguém poderia já escutar o murmúrio da bica de água ou ver o pessegueiro bravo florir encostado ao muro do quintal; por estes degraus sobe-se ao adro da igreja matriz, donde já não se avista o mundo porque o mundo cresceu desmesuradamente, mas onde podem contemplar-se uns plátanos formosíssimos, agora carregados de oiro velho. Por ruas estreitas e vielas, que se encontram ainda “a cem léguas do Porto e da vida” chega-se por fim, mesmo indo devagarinho, à Confeitaria da Foz, com o Miguel a aguentar-se bem nas pernas, apesar dos seus escassos seis anos.

A confeitaria onde eu e o Pascoaes tomávamos o café, não mudara só de nome, mudara também de aspecto, embora conservasse ao fundo algumas mesas junto às vidraças, por onde entrava o mar. Depois de nos sentarmos, comecei a falar do velho poeta ao Miguel. Não me parece que ele esteja muito atento.

Ó papi, qual é o maior, o Pascoaes ou o Fernando Pessoa?

Isso é uma pergunta que tem pouco sentido, Miguel. Um poeta, quando é grande, é sempre o maior para quem faz sua a poesia dele.

Mas qual achas que é o maior?

Bem, eu gosto mais do Pessoa. Não vale a pena dizer-te porquê, não saberia dizê-lo com palavras que tu entendesses.

O empregado serviu o café, o Sumol. Observo o pequeno enchendo escrupulosamente o copo.

Ó papi, tu gostavas que eu fosse como o Fernando Pessoa?

Não, filho; o que eu gostava era que fosses feliz.

Mas é que se eu fosse como o Fernando Pessoa não era feliz.

Ah, sobre isso não tenho dúvidas; ele também não o era, nem creio que estivesse preocupado com isso.

Calou-se; mas a pausa foi breve.

Tu sabes como é que eu era feliz?

Não, não faço ideia.

Fez outra pausa, mais breve.

Era feliz, se fosse como o Gomes.

Não respondi. Foi ele que insistiu:

Sabes quem é o Gomes?

Fingi uma ignorância maior do que na realidade tinha:

Deve ser…

Tu não sabes nada, papi! É o Bota de Oiro! Sabes o que é o Bota de Oiro?

Não me deu tempo de dizer sim ou não:

É o que mete mais golos.

Está bem Miguel, vamos ver o mar; deixa lá o Gomes e o Pessoa. O que importa é que venhas a ser tu próprio, não há outra maneira de ser feliz.

Peguei-lhe na mãozita, que se abandonou, confiante. Descemos à praia, soltou-se, correu pela areia. O mar era uma porção de brilhos, habitado, como estava, somente pela luz.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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