13
Mar
09

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas

um frio que se espalha na cidade.

Não é noite nem dia, é o tempo ardente

da memória das coisas sem idade.

 

O que sonhei cabe nas tuas mãos

gastas a tecer melancolia:

um país crescendo em liberdade,

entre medas de trigo e alegria.

 

Porém a morte passeia nos quartos,

ronda as esquinas, entra nos navios,

o seu olhar é verde, o seu vestido branco,

cheiram a cinza os seus dedos frios.

 

Entre um céu sem cor e montes de carvão

o ardor das estações cai apodrecido;

os mastros e as casas escorrem sombra,

só o sangue brilha endurecido.

 

Não é verdade tanta loja de perfumes,

não é verdade tanta rosa decepada,

tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,

tanto relógio, tanta pomba assassinada.

 

Não quero para mim tanto veneno,

tanta madrugada varrida pelo gelo,

nem olhos pintados onde morre o dia,

nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

 

Amanhece.

            Um galo risca o silêncio

desenhando o teu rosto nos telhados.

Eu falo do jardim onde começa

um dia claro de amantes enlaçados.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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