19
Mar
09

Véspera da água

Tudo lhe doía

de tanto que lhes queria:

 

a terra

e o seu muro de tristeza,

 

um rumor adolescente,

não de vespas

mas de tílias,

 

a respiração do trigo,

 

o fogo reunido na cintura,

 

um beijo aberto na sombra,

 

tudo lhe doía:

 

a frágil e doce e mansa

masculina água dos olhos,

 

o carmim entornado nos espelhos,

 

os lábios,

instrumentos da alegria,

 

de tanto que lhes queria:

 

os dulcíssimos melancólicos

magníficos animais amedrontados,

 

um verão difícil

em altos leitos de areia,

 

a haste delicada de um suspiro,

 

o comércio dos dedos em ruína,

 

a harpa inacabada

da ternura,

 

um pulso claramente pensativo,

 

lhe doía:

 

na véspera de ser homem,

na véspera de ser água,

o tempo ardido,

 

rouxinol estrangulado,

 

meu amor: amora branca,

 

o rio

inclinado

para as aves,

 

a nudez partilhada, os jogos matinais,

ou se preferem: nupciais,

 

o silêncio torrencial,

 

a reverência dos mastros,

no intervalo das espadas

 

uma criança corre

corre na colina

 

atrás do vento,

 

de tanto que lhes queria,

tudo tudo lhe doía.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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