02
Abr
09

À tua sombra

A terra me sabes,

à luz das manhãs

lisas de verão,

ao calor das pedras

achadas nas dunas.

Apetece cantar

nos gomos, nas luas,

nas colinas breves

do teu corpo nu;

cantar ou correr

na água, na seiva

dos ombros, dos braços,

no azul secreto

da concha das pernas.

Ó sabor eterno,

ó mortal sabor

das fontes da terra,

materno, solar

rumor de alegria:

apetece morrer,

morrer ou cantar.


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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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