Arquivo de Maio, 2009



13
Maio
09

De que país regressas?

De que país regressas?
De que mar ou regaço
onde o desejo respira devagar?
Fala, diz ainda a palavra
que faça do silêncio a casa
ou erga a coroa
do lume à altura do olhar.
12
Maio
09

Os frutos

Assim eu queria o poema:
fremente de luz, áspero de terra,
rumoroso de águas e de vento.
10
Maio
09

Nos teus dedos nasceram horizontes

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.
08
Maio
09

Noite de Verão

Passaram muitos dias já, e se me lembro
dessa noite de verão
escurecendo de vaga em vaga
foi porque mesmo no escuro cantavam
as cigarras. Estendido
a meu lado respirava outro corpo.
Um rasto de juventude
habitava-me ainda. Há corpos
onde não termina.
Um vento leve, a que chamam brisa,
passava entre as miúdas folhas
da oliveira. De repente um cão
ladrou. Estremecemos ambos.
E soubemos então que, mesmo o amor,
teria um fim. Talvez naquela noite.
Talvez daí a mil anos.
07
Maio
09

Dai-me um nome

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.
 
Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,
 
chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.
 
Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar
possa entrar numa canção.
06
Maio
09

Rumor

Quando o outono
já não pode senão melancolia
é que o secreto rumor da água
inunda os lábios de oiro.
04
Maio
09

Regressar ao corpo, entrar nele

Regressar ao corpo, entrar nele
sem receio da insurreição da carne.
Nenhuma boca é fria,
mesmo quando atravessou
o inverno. Uma boca é imortal
sobre outra boca: diamante
aceso, estrela aberta
quando a luz irrompe, invade
ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.
Despertos, puros no seu pulsar,
aí os tens: esplendorosos,
duros.
03
Maio
09

Vacilantes perdem-se agora os dedos

Vacilantes perdem-se agora os dedos,
o mar é longe, vai-se a voz quebrando,
para morrer vai sendo tarde.
 
Não duvides: sou essa árvore,
essa alegria só prometida às aves.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Maio 2009
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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