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O lugar dos amigos – Eduardo Lourenço

Neste "O lugar dos amigos" será dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio
- os seus colegas e amigos.

Começaremos então pelo amigo Eduardo Lourenço. 

O texto chama-se "Adeus a Eugénio" e foi publicado no Jornal Público a 14 de Junho de 2005.

A morte foi-lhe póstuma. Como para sublinhar que não lhe dizia respeito. Realíssima foi a sua longa agonia branca, o estar assistindo à sua vida sem poder fazer nada por ela. Nem nós, seus amigos, vendo o mais solar dos poetas a braços com esse crepúsculo sem manhã. Vivo e consciente, contemplou a última metamorfose, da sua própria margem, aquela que uma luminosa vida de versos lhe construíra como a única barca imune ao negro esquecimento. Aí permanecia o deus verde que sonhara o seu destino como quem dança. Sem anjos e sem pecado. Viera para inventar, cantando-se e encantando-se com o mundo, o seu próprio paraíso.

Do reino das sombras, só soube da ausência da luz original que elas são. No cristal das palavras talhou o corpo dos poemas onde morria e ressuscitava. Todas lhe eram caras mas mais aquelas que precisavam dele para serem saboreadas pelos outros, as mais discretas, as mais duras no seu silêncio, as que tocadas por ele se convertiam em chama perpétua. As coisas mesmas, as mais banais, foram os seus símbolos. Elas lhe bastaram para deixar na memória poética da nossa língua aquela "espécie de música" a que Óscar Lopes aludiu. E é o sonho inalcançável de todo o poema. No círculo encantado que de Bernandim conduz a Pessanha, Eugénio instalou a sua tenda. Agora pode conversar de igual a igual com os seus astros tutelares. E concentrar-se inteiro na haste da melancolia que evocou para nós. Ave solar em plena luz.

Vence, 13 de Junho de 2005

Eduardo Lourenço
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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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