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O lugar dos amigos – Almeida Faria

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

Carta a Eugénio de Andrade, por Almeida Faria

25.06.2005

Caro Eugénio,

Lembra-se quando nos conhecemos? Foi em Lisboa nos anos sessenta, eu acabara de publicar “A Paixão”, encontrámo-nos no Monte Carlo e você queria por força atravessar a recém-inaugurada Ponte Salazar. Apesar de ser noite, fomos até à outra banda conversando e voltámos, sempre a conversar.

Depois quase não nos vimos, embora eu fosse lendo os seus livros. Durante um curto período recebi notícias suas por um amigo comum que fez os nossos retratos imaginários e que, ao contrário de nós, não teve a sorte de envelhecer.

Quando recentemente nos reencontrámos foi na sua bem arrumada biblioteca, numa tarde em que a janela alta espalhava a luz na Foz por toda a sala. Assim que entrei, você disse-me “Afinal também você envelheceu”.

São assim os reencontros muito espaçados: trazemos uma imagem do outro na cabeça e de repente vemo-nos confrontados com uma cara onde só já se adivinham os traços que nos foram familiares.

Como se, num instante, a pessoa à nossa frente tivesse atravessado anos e anos de boas e más experiências, alegrias e desânimos, euforias, obsessões e sofrimento. Como se o tempo – que nos condena e nos liberta – tivesse acelerado indevidamente.

Clarividente era o Jorge de Sena ao escrever, ainda jovem, que “Nós não vemos viver o nosso rosto”.

Neste Setembro envelhecido, envia-lhe um grande abraço o seu cada vez menos jovem leitor antigo,

Almeida Faria

(In: “Dez Cartas e Um Bilhete Postal para Eugénio de Andrade”, Coordenação de José da Cruz Santos, Edições Asa)

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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