28
Mar
10

Noite transfigurada

Criança adormecida, ó minha noite,

noite perfeita e embalada

folha a folha,

noite transfigurada,

ó noite mais pequena do que as fontes,

pura alucinação da madrugada

– chegaste,

nem eu sei de que horizontes.

Hoje vens ao meu encontro

nimbada de astros,

alta e despida

de soluços e lágrimas e gritos

–  ó minha noite, namorada

de vagabundos e aflitos.

Chegaste, noite minha,

de pálpebras descidas;

leve no ar que respiramos,

nítida no ângulo das esquinas

– ó noite mais pequena do que a morte:

nas mãos abertas onde me fechaste

ponho os meus versos e a própria sorte.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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