Arquivo de Junho, 2010

29
Jun
10

O rio

Chega ao fim, o rio. Vem de longe só para morrer às mãos das vagas. Chega extenuado, o caminho é longo, nem sempre fácil, embora se demore muita vez a contemplar as margens, ora escarpadas, ora em socalcos verdes, entre oiro e carmim. Na foz esperam-no as gaivotas, mas sobre os seus flancos, onde o céu é mais fértil, as garças cinzentas seguem-no de perto – não sei dizer qual destas aves prefere para companhia. O que ele mais ama, sobre isso não tenho dúvidas, são aqueles álamos frios das terras de Sória, onde as suas águas são delgadas e jovens. Os álamos e a música que neles há, quando os anjos lhes acariciam as folhas, que tremem à sua aproximação. É com eles na alma, que se verga por fim o rio às águas salgadas da sua última morada.

23
Jun
10

Somos folhas breves onde dormem

Somos folhas breves onde dormem

aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

Cada ave se transforma noutro ser.

22
Jun
10

Canção da mãe de um soldado de partida para a Bósnia

É muito jovem, sem tempo ainda

de ser triste. Demora-se nos meus olhos

enquanto leva a maçã à boca.

Nenhuma fala obscura escurece a tarde,

a cabeleira solta é a sua bandeira;

os pés brancos, irmãos

da chuva de verão, anunciam a paz.

Suplico à estrela da manhã

que lhe guie os passos, agora que partiu;

que tenha em conta a sua ignorância,

não só da morte, também da vida.

19
Jun
10

O mês em que se morre, Eugénio e Saramago

Eugénio escolheu o mês de Junho para morrer. No passado dia 13 completaram-se 5 anos desde o desaparecimento de Eugénio.

Ontem, dia 18, José Saramago parte também, no mês em que a natureza mais floresce e pulsa de vida.

Hoje o Sal da Língua presta homenagem à perda do homem e à imortalidade do génio. A obra é um filho que nunca cresce, é talvez a única forma de permanecermos vivos. Hoje Saramago está tão vivo e tão morto como ontem. A verdade é que o caminho, como ele dizia, nunca acaba.

O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal.

In Viagem a Portugal (1981), Ed. Caminho, 21.ª ed., p. 137

Acho que todos nós devemos repensar o que andamos aqui a fazer. Bom é que nos divirtamos, que vamos à praia, à festa, ao futebol, esta vida são dois dias, quem vier atrás que feche a porta – mas se não nos decidirmos a olhar o mundo gravemente, com olhos severos e avaliadores, o mais certo é termos apenas um dia para viver, o mais certo é deixarmos a porta aberta para um vazio infinito de morte, escuridão e malogro.

In Deste Mundo e do Outro, Ed. Caminho, 7.ª ed., p. 216

17
Jun
10

Notícias da Fundação

Notícias da Fundação Eugénio de Andrade

No próximo Sábado, dia 19 de Junho, pelas 18:30h, João de Mancelos apresenta, na Fundação Eugénio de Andrade (Rua do Passeio Alegre, 584, 4150 Porto), uma palestra intitulada “Pintar com Palavras: As Artes Plásticas na Poesia de Eugénio de Andrade“.

A entrada é livre. Fica o convite para a palestra e posterior conversa ao redor da obra de Eugénio de Andrade.

15
Jun
10

Discurso tardio à memória de José Dias Coelho

Éramos jovens: falávamos do âmbar

ou dos minúsculos veios de sol espesso

onde começa o vero; e sabíamos

como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,

desatando um a um os nós do silêncio.

Pegavas num fruto: eis o espaço ardente

de ventre, espaço denso, redondo maduro,

dizias; espaço diurno onde o rumor

do sangue é um rumor de ave –

repara como voa, e poisa nos ombros

da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também

ela, também ela a não tinha. Na planície

branca era uma fonte: em si trazia

um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,

morre-se de ter um corpo, quando subitamente

uma bala descobre a juventude

da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José – o que é um nome?

Que nome nos impede de morrer,

quando se beija a terra devagar

ou uma criança trazida pela brisa?

 

Mais sobre José Dias Coelho:

José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961) foi um militante político anti-fascista e escultor português. A sua carreira enquanto escultor é posta de parte quando opta pela luta anti-fascista e pela clandestinidade em 1955, o mesmo ano em que vê os primeiros sinais de reconhecimento público pelo seu trabalho artístico. Foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa. Nessa altura pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado. O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música “A morte saiu à rua”. 

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.

13
Jun
10

Nocturno de veneza

Pergunto se não corre esta secreta

música de tanto olhar a água,

pergunto se não arde

de alegria ou mágoa

este florir de ser na noite aberta.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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