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Discurso tardio à memória de José Dias Coelho

Éramos jovens: falávamos do âmbar

ou dos minúsculos veios de sol espesso

onde começa o vero; e sabíamos

como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,

desatando um a um os nós do silêncio.

Pegavas num fruto: eis o espaço ardente

de ventre, espaço denso, redondo maduro,

dizias; espaço diurno onde o rumor

do sangue é um rumor de ave –

repara como voa, e poisa nos ombros

da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também

ela, também ela a não tinha. Na planície

branca era uma fonte: em si trazia

um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,

morre-se de ter um corpo, quando subitamente

uma bala descobre a juventude

da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José – o que é um nome?

Que nome nos impede de morrer,

quando se beija a terra devagar

ou uma criança trazida pela brisa?

 

Mais sobre José Dias Coelho:

José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961) foi um militante político anti-fascista e escultor português. A sua carreira enquanto escultor é posta de parte quando opta pela luta anti-fascista e pela clandestinidade em 1955, o mesmo ano em que vê os primeiros sinais de reconhecimento público pelo seu trabalho artístico. Foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa. Nessa altura pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado. O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música “A morte saiu à rua”. 

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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