Arquivo de Janeiro, 2011

30
Jan
11

Poema para Sophia Andresen

Da exposição de Sophia trago a inspiração da mulher, da mãe, da cidadã, da pessoa e, claro está, da poeta e da amante da beleza em todas as coisas e da justiça acima de tudo. E trago um poema também, para o Sal da Língua, do querido Eugénio de Andrade.

Poema para a Sophia Andresen de Eugénio de Andrade

(Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen)

Não sei porque floriram no meu rosto

os olhos e os rostos que há em ti.

Floriram por acaso, ao sol de agosto

sem mesmo haver agosto ou sol em mim.

Não sei porque floriram: se o orvalho as queima

(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)

Tão estranho! florirem no meu rosto

olhos e rostos que não posso ver.

Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1946

27
Jan
11

O Sal da Língua sugere…Sophia

O Sal da Língua sugere uma visita à exposição “Sophia de Mello Breyner Andresen – Uma Vida de Poeta”, inaugurada ontem na Biblioteca Nacional e que aí permanecerá até 30 de Abril. Depois da doação do espólio literário e artístico de Sophia à Biblioteca pelos seus filhos, cujo termo de doação foi ontem assinado,  ficam disponíveis fragmentos da vida e da obra: inéditos, primeiras edições, correspondência, fotografias, cartas, diários de viagens. Sophia mais perto, Sophia mais dentro, Sophia para todos.

Sophia por Fernando Lemos

Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.

Sophia

27
Jan
11

Enquanto escrevia

Enquanto escrevia, uma árvore começou a penetrar-me lentamente a mão direita. A noite chegava com seus antiquíssimos mantos; a árvore ia crescendo, escolhendo para domínio as águas mais espessas do meu corpo. Era realmente eu, este homem sem desejos de outro corpo estendido ao lado? Já não me lembro, passava os dias a dormir à sombra daquela árvore, era o último verão. Às vezes sentia passar o vento, e pedia apenas uma pátria, uma pátria pequena e limpa como a palma da mão. Isso pedia; como se tivesse sede.

In: Memória Doutro Rio (1978)

24
Jan
11

Recomeçar para Eugénio e José da Cruz Santos

O Sal da Língua tem o prazer de divulgar a notícia da reedição, a partir do próximo mês, da obra completa do poeta, cada vez mais difícil de encontrar nas livrarias.

Os herdeiros de Eugénio de Andrade estabeleceram um acordo com a editora Modo de Ler para o lançamento de 29 títulos da obra canónica de Eugénio de Andrade, além de álbuns, antologias e edições especiais ou inéditas.

José da Cruz Santos: O recomeçar outra vez do editor de Eugénio 

(por Francisco Mangas, DN Online)

Galimard inspirou-o: publica o que gosta de encontrar como leitor. Agora reedita a obra do autor de ‘As Mãos e os Frutos’, como se fosse a primeira vez.

Nasceu para ser editor. Disso não tem, nem podia, ter dúvidas. Ao longo de quase meio século deixa marca original em dezenas de livros. Edições inesperadas pelo aparato gráfico, pelo grande formato, pela exígua tiragem. Ou edições aparentemente despojadas, como um “rumor branco”, basta rever a limpidez dos livros de Eugénio, no tempo da Inova. Do poeta de As Mãos e os Frutos promete, agora, trazer à luz a obra completa – retomar um diálogo muito antigo.

José da Cruz Santos, mais do que editor, nasceu – o próprio o afirma – para “inventar livros”. De tal engenho se apercebeu Vergílio Ferreira, quando viu, espantado, o romance Aparição, numa bela edição comemorativa dos seus dos 25 anos de vida literária. “Ele cria um livro a partir de tudo, como se nada houvesse”, comentou o romancista. É editor, mas, a mais das vezes, parece um leitor a dirigir o seu ofício criativo.

Inspira-o o exemplo de Galimard. Na arte de fazer livros incomuns, o seu mestre foi o editor francês. O verdadeiro editor “é aquele que procura publicar um livro que gostaria de encontrar como leitor”, defendia Galimard. Uma posição ao arrepio do actual mundo editorial, como bem sabe Cruz Santos. Depois do encerramento da Inova, a sua colaboração em outras casas editoriais tem sido efémera. “Não me identifico com eles, com os outros editores.” Muitos são os responsáveis pelo “lixo editorial que entulha as livrarias e que afasta, em nome do lucro fácil, os leitores das obras que poderiam aproximá-los da nossa tão amada língua portuguesa”.

O editor do Porto iniciou a actividade em Lisboa, na Portugália. Nesta editora, publica, em 1966, Poemas, a obra reunida de Eugénio de Andrade. Poeta e editor já se conheciam das tertúlias portuenses, mas a partir daí nasce uma amizade que dura a vida toda. Eugénio despediu-se em 2005 do mundos dos vivos, o editor pretende manter viva a amizade, o respeito pela palavra, através da reedição da obra toda do autor de Afluentes do Silêncio.

A aventura editorial lisboeta acaba. O homem que nasceu para ser editor regressa ao Porto e continua a inventar livros. “Não sei quando comecei a pensar que gostava de trabalhar numa editora, mas lembro-me que detestava o curso que frequentava à noite e os empregos que ia arranjando.” Enquanto o projecto da Inova amadurecia, publica Eros de Passagem, poemas de Eugénio de Andrade e desenhos de José Rodrigues. O diálogo entre a escrita e as artes plásticas é uma das marcas nas obras de Cruz Santos.

Eros de Passagem, diz, “é uma edição rara, começa aqui o meu relacionamento com o José Rodrigues”. Fora do comum seriam duas outras publicações, da autoria de Eugénio e Rodrigues: Cartas Portuguesas e Variações Sobre o Corpo. “Tinham um formato de 60 por 50, uma tiragem de apenas 26 exemplares, com um original do José Rodrigues.”

Os últimos dois títulos surgiam já com a chancela da Inova, onde Eugénio publica grande parte da sua obra poética. Antes da edição, o autor passava os poemas, inacabados, ao editor. Esta forma de aferir a qualidade da escrita permitiu a Cruz Santos guardar “muitas versões de poemas, que foram depois alterados”. Em certos casos, entre a primeira versão o texto final, de semelhante “resta um verso” .

O Eugénio escrevia em cadernos escolares, de capa preta. “Tenho dois desses manuscritos”, correspondem aos originais completos de Mar de Setembro e Limiar dos Pássaros. Pensa fazer, em breve, uma edição com este material raro: a ideia é juntar, no mesmo volume, o texto definitivo e a versão dos poemas manuscritos.

O rigoroso autor de Chuva sobre o Rosto conhecia como poucos a força e a fragilidade da palavra. Teria de ser harmoniosa e limpa, só assim podia habitar o poema, a casa dos seus luminosos poemas. Por isso, quando considerava terminado o trabalho poético, fazia novo teste. Lia, em casa, os poemas à sua empregada, anotava em silêncio as reacções da bondosa senhora – encantada, por certo, com a musicalidade e a aparente simplicidade dos versos.

Ainda era pouco. Persistia a dúvida. Eugénio, enfim, não podia renegar o secreto e lento mecanismo da poesia: “Sê paciente: espera/ que a palavra amadureça/ e se desprenda como um fruto/ao passar o vento que a mereça”. As palavras, antes de impressas para sempre, careciam de outro ouvinte, leitor de muita e variedade poesia. Era, pois, a vez de Cruz Santos, o editor amigo, se tornar cúmplice do rigor que Eugénio impunha à sua obra. “Ele lia muito bem, tão bem que eu, no final, dizia–lhe: você tem voz de sereia, portanto agora vou ler eu e, depois, dou–lhe a minha opinião,”

Obras de e sobre Eugénio de Andrade, Cruz Santos publicou até hoje mais de meia centena. Agora, após o recente acordo com os herdeiros do poeta, através da sua editora Modo de Ler vai reeditar a obra toda do amigo, “praticamente desaparecida das livrarias”.

No próximo ano, este camilianista (“a minha grande frustração foi não ter conseguido dar continuidade a uma colecção camiliana!”), apaixonado pela poesia, completa 50 anos de actividade editorial. Para assinalar o feito, prepara a edição de alguns livros. O primeiro, garante, “será completamente diferente”do que fez até hoje. Um desafio, sem dúvida, para Rui Mendonça, responsável pela nova linha gráfica da Modo de Ler.

22
Jan
11

Tu estás onde o olhar começa

Tu estás onde o olhar começa

a doer, reconheço o preguiçoso

rumor de agosto, o carmim do mar.

Fala-me das cigarras, desse estilo

de areia, os pés descalços,

o grão do ar.

In: Matéria Solar (1980)

16
Jan
11

A um lodão da minha rua

Ninguém tem corpo mais fino,

nem braços tão delicados

como este lodão

crescendo com vigor à minha porta.

Tenho com ele desvelos de namorado,

limpo-o de ervas daninhas,

rego-lhe a terra ao calor de Agosto,

alegro-me a cada rebento novo,

cada folha recente. Cresce e cresce

em esplendor, certo de ser amado.

In: Rente ao Dizer (1992)

13
Jan
11

Um simples pensamento

É a música, este romper do escuro.

Vem de longe, certamente doutros dias,

doutros lugares. Talvez tenha sido

a semente de um choupo, o riso

de uma criança, o pulo de um pardal.

Qualquer coisa em que ninguém

sequer reparou, que deixou de ser

para se tornar melodia. Trazida

por um vento pequeno, um sopro,

ou pouco mais, para tua alegria.

E agora demora-se, este sol materno,

fica comigo o resto dos dias.

Como o lume, ao chegar o inverno.

In: Os Sulcos da Sede (2001)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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