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Fev
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Outro exemplo: Visconti

Trabalhava como um doido, ocultando o seu sofrimento. A doença humilha, agora era de uma cadeira de rodas que dirigia os actores, alterava a decoração, discutia as luzes. Trabalha para não morrer, dizem os amigos. Horas e horas para escolher o tom de um cortinado, a maneira de erguer um véu à altura da boca, a cor das maçãs no linho baço da toalha, com esse amor à realidade que só conhece quem a sabe tão fugidia. Abandonada a câmara, era ainda no trabalho que pensava em ler duas ou três páginas de Proust, de Stendhal. Apagara a luz, depois de ter ordenado que retirassem as flores do quarto, o aroma das gardénias começava a enjoá-lo. Mas o sono demorava. Tinha a cabeça cheia de imagens, sobretudo de sua mãe, surgindo no meio de uns versos de Auden, que fizera seus nos últimos tempos: When you see a fair form chase it / And if possible embrace it / Be it a girl or a boy… Adormecia tarde e era o primeiro a despertar. Chamou para que o lavassem, o vestissem. Recomeçaria uma vez mais a cena, com nova iluminação. O rosto de Tullio Hermil deveria estar na penumbra, só as mãos francamente iluminadas. Porque é nas mãos… Não, não, as mãos são inocentes. É no espírito que tudo tem origem; mesmo o amor; mesmo o crime. Excepto a morte. A morte era bem no seu corpo que principiava. Ali estava ela, tomando conta de si. Via-a crescer a cada instante, essa cadela. De súbito, tornara-se real, os dentes afiados, a baba escorrendo, o salto iminente. Em grande plano.

In: Vertentes do Olhar (1987)

 

Apontamento do Sal da Língua: Luchino Visconti, aclamado realizador italiano, realiza o seu último filme – O Inocente – com interpretações de Giancarlo Giannini e Laura Antonelli, já de cadeira de rodas, na fase final da sua vida e em estado de completa degradação física. Este filme, que Visconti não chegou a ver pronto, baseia-se no romance de Gabriele D´Annunzio, autor que se ligou ao fascismo e foi hostilizado pela crítica de esquerda. Por conta dessa escolha, o cineasta foi chamado de decadente, o que admitia ser. “Tenho da decadência uma opinião bastante favorável”, dizia. A história do aristocrata que mata o seu bebé, convencido de que este resulta do adultério da mulher, trata da culpa da aristocracia e é um fecho terrível para a obra de Visconti. Debilitado, ele infernizou a vida dos colaboradores, acusando-os de traição sempre que a imagem e a interpretação não saíam exactamente como ele queria. (Fonte: http://www.italiaoggi.com.br)

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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