28
Fev
11

Escuto o silêncio

Escuto o silêncio: em Abril

os dias são

frágeis, impacientes e amargos;

os passos

miúdos dos teus dezasseis anos

perdem-se nas ruas, regressam

com restos de sol e chuva

nos sapatos,

invadem o meu domínio de areias

apagadas,

e tudo começa a ser ave

ou lábios, e quer voar.

 

Um rumor cresce lentamente,

oh, lentamente

não cessa de crescer,

um rumor de pálpebras

ou pétalas

sobe de terraço em terraço,

descobre um dia

de cinzas com vestígios de beijos.

 

Um só rumor de sangue

jovem:

dezasseis luas altas,

selvagens, inocentes e alegres,

ferozmente enternecidas;

dezasseis potros

brancos na colina sobre as águas.

 

Como um rio cresce, cresce um rumor;

quero eu dizer,

assim um corpo cresce, assim

as ameixieiras bravas

do jardim,

assim as mãos,

tão cheias de alegria,

tão cheias de abandono.

 

Um rumor de sementes,

de cabelos

ou ervas acabadas de cortar,

um irreal amanhecer de galos

cresce contigo,

na minha noite de quatro muros,

no limiar da minha boca,

onde te demoras a dizer-me adeus.

 

Escreve um rumor: é só silêncio.

In: Ostinato Rigore (1964)

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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