Arquivo de Março, 2011

30
Mar
11

À boca do cântaro

Caminha sílaba a sílaba

como a fonte

que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.

À audácia dos jovens, à timidez

dos que já o não são, mata a sede.

Aos que tropeçam na falta

de amor, aos que mordem as lágrimas

em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris

a frescura da pedra. Não deixes

o medo multiplicar as garras.

Sílaba a sílaba

caminha até ao cântaro

vazio. – Tão cheio agora!

In: Os sulcos da Sede (2001)

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26
Mar
11

Generosidade

O Sal da Língua agradece as mais de 40 000 visitas e eu agradeço a generosidade e o carinho de todos os que por aqui têm passado.

Saudações poéticas,

Raquel

26
Mar
11

Alguém com nome

Agora vou falar da preguiçosa e fina

névoa entre os olhos e o rio.

Às vezes passava um barco.

Era como um arado lavrando

no meu coração a terra morta.

À proa o vento salgado dos pinhais.

Não sei para onde ia.

Devia haver em qualquer parte

um porto para o seu desassossego,

alguém de olhar molhado no cais

à sua espera. Numa cidade

pequena do Norte. Alguém

com nome, talvez Kai, os lábios

mordidos pelo vento, Kai

Haagen, no porto de Göteborg,

na costa da Suécia. Adeus, adeus.

In: Os Lugares do Lume (1998)

21
Mar
11

O Sal da Língua comemora…O dia da Poesia

O Sal da Língua e Eugénio desejam a todos um feliz dia da Poesia e um feliz dia da Árvore com um poema sobre árvores do poeta Ruy Belo…

Árvores que dão pássaros (Ruy Belo)

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem com a poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

16
Mar
11

O azul, o azul rouco, o azul

O azul, o azul rouco, o azul

sem cor, luz gémea da sede.

Acerca deste rigor

tenho uma palavra a dizer,

uma sílaba a salvar

desta aridez, asa

ferida, o olhar arrastado

pela pedra

calcinada, húmido

ainda de ter pousado

à sombra de um nome,

o teu,

amor do mundo, amor de nada.

In: Contra a Obscuridade (1988)

15
Mar
11

O Sal da Língua sugere…as comemorações do Dia da Poesia

O Sal da Língua sugere as várias actividades espalhadas por todo o país, associadas à comemoração do Dia Mundial da Poesia.

A título de exemplo, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o dia 20 de Março, entre as 11 h da manhã e as 19h da tarde, é pleno de actividades em torno da Poesia, numa iniciativa conjunta do Plano Nacional da Leitura (PNA) e do Centro Cultural de Belém.

A programação envolve, entre outras actividades, uma Feira do Livro de Poesia, a declamação de poemas pelo público, uma exposição de Mário Botas, um workshop “Do Verso à Música” com António Carlos Cortez, declamação de poesia por poetas e outras personalidades (Fernando Echevarría, Filipa Leal, Jaime Rocha, Armando Silva Carvalho, Pedro Mexia, Gastão Cruz, Pedro Tamen, Margarida Vale de Gato, Nuno Júdice, Miguel Manso, A. Da Silva O., António Carlos Cortez), uma Maratona de Leitura de poemas de Herberto Helder, lidos por várias personalidades (António Mega Ferreira, Paula Morão, Isabel Alçada, Fernando Pinto do Amaral, Gabriela Canavilhas, Paulo da Costa Domingos, Lídia Jorge, Maria João Seixas, Inês Fonseca Santos, Filipa Leal e Diogo Dória), Conferências, Concertos, Oficinas para crianças e muito mais…



 

13
Mar
11

Coisas mudáveis

De tão luminosa, essa ferida

já nem dói – ó tão mudáveis

coisas vindas

na palavra, sucessiva

ondulação do mundo

latindo contra o coração,

vagas de sombra ou só de pedra,

 canção despedaçada

contra os vidros, fulva

vagabundagem de abelhas,

manhã de Junho

tão cedo prometida às areias.

In: Ofício de Paciência (1994)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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