26
Mar
11

Alguém com nome

Agora vou falar da preguiçosa e fina

névoa entre os olhos e o rio.

Às vezes passava um barco.

Era como um arado lavrando

no meu coração a terra morta.

À proa o vento salgado dos pinhais.

Não sei para onde ia.

Devia haver em qualquer parte

um porto para o seu desassossego,

alguém de olhar molhado no cais

à sua espera. Numa cidade

pequena do Norte. Alguém

com nome, talvez Kai, os lábios

mordidos pelo vento, Kai

Haagen, no porto de Göteborg,

na costa da Suécia. Adeus, adeus.

In: Os Lugares do Lume (1998)

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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