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O lugar dos amigos – Eduardo Pitta

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

O Mestre da Elipse, por Eduardo Pitta

26.06.2005

Nos jornais da província, é ou era frequente vir notícia do aniversário do juiz da terra, o trânsito de um notável, ou o matrimónio da filha do senhor presidente da Câmara. Não tem mal esse paroquialismo. É uma forma de “nobilitação” como qualquer outra.

Atingido o patamar nacional, a dimensão passa a ser outra. Por isso me causa estranheza o lastro provinciano de algumas manifestações associadas à morte de Eugénio de Andrade. Ouvir lamentar a fraca afluência de políticos “de Lisboa”, ou, pior ainda, ver no cemitério do Prado do Repouso um dirigente partidário a perorar como se estivesse num comício, lembra fatalmente as ominosas práticas de certos regimes. Eugénio tem direito a ser tratado com respeito, significando isso que dispensa a lógica “apparatchik”. Uma coisa é a comoção dos amigos próximos, merecedora de reserva, outra bem diferente a falta de pudor de quem não se coíbe de recordar quanto Eugénio lhe ficou a dever o “conforto” dos últimos anos. As Fundações existem para preservar a memória ou potenciar o estudo da obra dos patronos, sendo irrelevante a eventual (e muito rara) vertente doméstica.

Um poeta, e por maioria de razão um poeta com o perfil de Eugénio, sobrevive na obra que deixa. Ler os seus livros é a homenagem que lhe devemos. Lê-lo e manter o que dissemos enquanto vivia. Os poemas, os textos em prosa, tão esquecidos, tão pouco citados – quem se lembra da colectânea de 1968 onde nos fala de Pascoaes, Lorca, Pavia, Rosalía, Resende, Nobre, e outros, “Os Afluentes do Silêncio”, precisamente -, as entrevistas que deu, e foram tantas que algumas passaram despercebidas, mas numa delas, livre de entrelinhas, idiossincrática entre todas, Eugénio não teve pejo em listar aquilo que detestava, o verbo é seu: fado, sebastianismo, filosofia portuguesa, o Papa, os militares, a obra de Camilo, Wagner, Elizabeth Taylor, os sonetos de Florbela Espanca, as praias do Algarve, o bispo de Braga, migas de bacalhau, o Ulisses de Joyce, a senhora Thatcher, Almada Negreiros, folclore, travestis, pupilos do exército, exibicionismo, sentimentalismo, surrealismo, poesia barroca, a arquitectura de Taveira, Almodóvar, os pastorinhos de Fátima, a poesia de Ginsberg, o carnaval brasileiro, a pintura de Rubens, os acrósticos, Andy Warhol, “O Retrato de Dorian Gray”, louça das Caldas, Madonna, castelos da Baviera, pilhérias, comer com mais de uma pessoa, etc. Por contraponto, também dizia, na mesma entrevista, do que gostava: entre outras coisas, dos esquilos de Central Park, de Virginia Woolf, de Mozart, de Oxford, dos madrigais de Monteverdi, de Moby Dick, de espirituais negros, das dunas de Long Island no Inverno, das Goldberg Variations, de framboesas, de Walt Whitman, de coros alentejanos, da mãe, e de um verso de Cesariny: “Conto os meus dias, tangerinas brancas”. As coisas amadas correspondem à imagem que lhe ficou colada. Mas qualquer coisa me diz que o Eugénio mais autêntico passa pelo inventário do abominado. Aos poetas não se exige que sejam “correctos”, apenas se lhes pede genuinidade. Como disse Joaquim Manuel Magalhães, “transformá-lo no poeta oficial daqueles que não reconhecem os poetas maioritários […] coloca-o na linha inquietante dos homenageáveis que se deixam homenagear.” (cf. “Os Dois Crepúsculos”, 1981, p. 93) Insistir na “veneração” acrítica é um disparate e um erro.

Um dos sintomas desse culto passa pelo branqueamento da homossexualidade de Eugénio. Lembro-o sem intuito de estabelecer qualquer tipo de “homonormatividade”. Longe disso. Acontece que há uma coisa chamada identidade sexual, a qual, no caso de Eugénio, sofreu entorse sistemática. Se é verdade que tudo assenta numa “elemental” ambiguidade, falando e não falando “do que tanto se calava / ou só obliquamente referia”, não podemos ignorar a obsidiante presença do corpo masculino: “As Janelas / abrem […] para a extrema embriaguez / de um corpo nu nas areias. / / As janelas abrem para a loucura / da sombra de um lírio entre as pernas. / / Abrem para a luz extenuada / e masculina das colinas, / / para as águas tresmalhadas, / para a língua em chama nas virilhas […]”. A repressão teve a sua quota: nas edições anteriores a 1966, o último verso do poema VIII de “As Mãos e os Frutos” era “uma mulher pura como os animais”. A partir desse ano passou a ser “um corpo aberto como os animais”. É o triunfo do referente sem género. Mestre da elipse, Eugénio não mais parou de ser incensado.

Mas, onde quer que esteja, estou em crer que está a fazer figas pela “desforra”. Eugénio soube sempre que o beija-mão nada tinha de inocente. Ter-se posto a jeito foi o ónus que sofreu pela tença.

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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