Arquivo de Maio, 2011

31
Maio
11

Cardos

Este é o lugar onde só o lume

não demora a florir,

onde o verão abdica

de ser metáfora para arder

até ao fim.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

30
Maio
11

O Sal da Língua sugere…Poema Bar

O Sal da Língua sugere uma ida à Casa Fernando Pessoa, para um combinado de poesia e música com sabor a Portugal e gosto a Brasil. Palavras de Pessoa e Vinicius serão celebradas, a viva voz, com a ajuda das canções de Cláudio Santoro, das vozes brasileiras do actor Alexandre Borges e da cantora Mariana de Moraes e do piano de João Vasco.

É já no dia 2 de Junho pelas 18h30 e a entrada é livre.

Mariana de Moraes / Alexandre Borges

26
Maio
11

Tebas

Era um lugar onde só

a poesia

me podia ter levado –

lugar de morte, a luz

roída,

rala.

Até a minguada

romãzeira

era de pedra.

O vento

acrescenta-lhe a poeira.

 

In: Escrita da Terra (1974)

17
Maio
11

Frases

No verão inocente dos joelhos

 

à entrada da noite

como se a luz doesse

 

entre o desejo

e o espasmo lentíssimo relâmpago

 

a mão.

 

In: Véspera da Água (1973)

12
Maio
11

Se vens à minha procura

Se vens à minha procura,

eu aqui estou. Toma-me, noite,

sem sombra de amargura,

consciente do que dou.

 

Nimba-te de mim e de luar.

Disperso em ti serei mais teu.

E deixa-me derramado no olhar

de quem já me esqueceu.

 

In: As mãos e os Frutos (1948)

09
Maio
11

O Sal da Língua sugere… Imaginarius e Saramago

O Sal da Língua sugere a peça “The Blind”, baseada no livro de José Saramago “Ensaio sobre a Cegueira”. Esta peça, da companhia polaca KTO, é apresentada pela primeira vez em Portugal na 11ª edição do Festival Imaginarius – Festival Internacional de Teatro de Rua de Santa Maria da Feira, que se realiza de 19 a 21 de Maio. São três noites onde será possível ter a rua como palco e a cegueira como proximidade e comunicação. Uma peça e um Festival a não perder.

O palco é a rua que se transforma num subtil bailado de poder, dominação e submissão num inferno branco. A epidemia da cegueira toma conta dos corpos e as camas que entram no cenário assumem diversas metáforas: barcos que navegam, um muro de lamentações, a cruz onde quase se deixa de respirar no meio da tragédia. Não há palavras porque as expressões são intensas. Há músicas, gritos, olhos que vagueiam, dança. Jerzy Zo, director da KTO, encenou a cruzada desses cegos que carregam consigo a desordem social e uma humanidade que sofre por não ver.” (In: Público online, “Os cegos de Saramago nas ruas da Feira”, por Sara Dias Oliveira, 04 05 2011)

11ª Edição Festival Imaginarius

08
Maio
11

Fidelidade em Armando Alves

Ele veio da planície, como se sabe. Veio da ondulação das searas, ininterrupta, até quando não há vento. Só muitos, muitos anos depois descobrirá dentro de si outra ondulação – a do mar, agora a dois passos de casa. Mar que nos entra pela varanda com o verão, ou podemos encontrar à porta, como se nos esperasse para uma carícia. É esta a surpresa que nos traz hoje esta pintura – o mar, o mar, o mar, de vaga em vaga. À ondulação do trigo, de que ainda há vestígios em várias telas, sucedeu a ondulação da espuma. Os ocres queimados cederam o passo aos azuis gloriosos. Os amarelos sombrios abriram-se à rebentação da cal. Espuma ou esperma, tanto faz – estas golfadas têm um destino: emprenhar a terra.

Continuo a pintar o Alentejo, diz-me ele. Mas agora um Alentejo de água, digo-lhe eu. Gosto desta fidelidade. A força de um artista vem-lhe do conhecimento dos seus limites. E os limites do homem são os da sua paixão, essa desmesura. Ser homem resolutamente, exigia Kierkegaard, o Desesperado. Não é tarefa fácil. Com júbilo no coração ou com um corpo ferido aos ombros, ser homem é difícil. Fiel à sua paixão. Resolutamente. Paixão à terra, a este horizonte raso, ondulante, entrando em espasmos sucessivos pelo corpo do mundo; indiferente a esse perverso refinamento que é apenas comprazimento na inteligência, e suas ligações aos círculos do poder, ou do mercado, de tão funestos frutos. Paixão ao corpo, à irradiação do corpo, à sensualidade magnificente do corpo, que transforma as formas da vida, mesmo as mais humildes, em apetência de luz, de mais luz ainda, última súplica do olhar.

Um dia ele conhecerá outra ondulação, a do silêncio. E será a perfeição.

In: À sombra da memória (1993)

Armando Alves, Paisagem (2009) - Óleo sobre tela (45 cm x 50 cm)

03
Maio
11

Limiar dos Pássaros

Ainda esta poeira sobre o coração

queria que chovesse sobre os ulmeiros

sair limpo desses olhos

da luz que se demora a polir os seixos

 

A corrosiva música das vogais que te devora

o silêncio do muro

às vezes quase azul

o verão afinal onde o ar é mais duro

 

Acordarás com as primeiras chuvas

a floração do trevo doía

o olhar sempre negado

aos cães da mote sempre prometido

 

Estende-te aqui

perto do oiro branco das cigarras

já tenho ouvido chegar o verão

a sua frágil quilha em águas quase mortas

 

A clara desordem dos cabelos

(dos cavalos não é ainda tempo)

a fundula da pupila

os lábios por dentro finalmente acesos

 

Tudo o mais te direi sobre o teu peito

à superfície uma poeira fresca

como quem escuta sobre a erva

as nascentes do fogo

 

Sem mácula não há luz sobre os joelhos

é um corpo de amor este que temos

até ao chão

da água mais exígua

 

Amar a boca fatigada do corpo

ou outra ainda mais estéril

entrar

onde o silêncio desce às fontes

 

Morrer e não morrer sobre os teus rins

uma árvore de pássaros ardia

era verão escuta os seus cavalos

à roda da cintura

 

O cálido esperma das palavras

no interior do cabelo derramado

um sol de palha fresca a boca

de que rio regressa?

 

Dessa cal de homem rompe a lua

de sol extenuada

ergue-se de gume em gume e cai

no espelho a prumo das espadas

 

Falar dizer de outra maneira

as labiais bebidas corpo a corpo

deambular pelas pernas pela boca

abandonar-me entre as pedras à poeira

 

Onde fluvial a meio da noite

cresce a pedra

branca dos álamos

as crianças dormem com os pássaros

 

Um corpo ao crepúsculo lido pelo vento

chama-se música

esta queda no escuro

rente ao murmúrio

 

Dizer como um rosto se extingue sem cessar

que farei deste nome que me sobra?

Eu tinha duas mãos que te queriam

grandes olhos de pássaro fulminado

 

Como dizer que vai morrendo

sobre pedras sem nome

la prima voce che passò volando

distante já da nossa idade?

 

Ninguém sabia de onde vinha

atravessara a noite do olhar

e o medo e o êxtase das espadas

o amor que é sempre argila branca

 (continua …)

In: Limiar dos Pássaros (1976)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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