Arquivo de Junho, 2011

29
Jun
11

Retrato de rapariga (Gageiro, Alentejo, 1985)

… Um poema escrito a  propósito de um dos trabalhos do fotógrafo português Eduardo Gageiro…

 

Ela é na sua transparência

vegetal o rosto limpo da manhã,

o terreiro varrido pela luz

verde e ondulada do trigo,

a beleza concreta rente ao chão:

a infindável extensão da cal,

a lenta aproximação de um rio.

16.7.99

 

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 
 
27
Jun
11

Sul

Depois de uns dias de pausa, da vida como ela é, num recanto escondido do sul do país, com sal, sol e mar, regresso ao quotidiano. De Eugénio, também o “Sul”.

 

Pelo azul da pedra vê-se que é verão,

à beira do tanque os aloendros devem estar

em flor,

as águas reflectem o silêncio.

 

 In: Escrita da Terra (1974)

19
Jun
11

Poemas de Eugénio de Andrade lidos pelo autor

No outro dia, em casa de uma amiga, descobri o LP “POEMAS DE EUGÉNIO DE ANDRADE LIDOS PELO AUTOR”, da Editora Orfeu. Aqui fica o desenho de José Rodrigues que consta da capa do LP, para integrar a Galeria de Eugénio no Sal da Língua.

Eugénio de Andrade por José Rodrigues

 

Neste LP, uma edição Arnaldo Trindade& Cia, Porto-Lisboa-Faro, constam, no LADO A, os seguintes poemas: As palavras, Green God, Poema à Mãe, Pequena elegia de Setembro, As palavras interditas, Eros, Litania, Serenata, Lettera Amorosa, Adeus, Escuto o silêncio, A música, Véspera da água, Arte de navegar, Nas ervas, Desde o chão, Nocturno sem figuras, O silêncio, Dissonâncias. No LADO B, por seu turno, constam os seguintes: Sobre o caminho, Sobre os rios, Sobre a cintura, Fragmentos para uma arte poética, Outro fragmento, Homenagem a Webern, Cavatina, Sobre flancos e barcos, Esse verde, Rente à fala, Verão sobre o corpo, Três ou quatro sílabas.

16
Jun
11

Música de palavra(s)

O Festival Silêncio teve honras de abertura, ontem à noite, com o espectáculo “Música de Palavra(s)”, uma celebração da palavra poética cantada a duas mãos por José Mário BrancoCamané, acompanhados magistralmente pelo contrabaixo de Carlos Bica, pela guitarra de José Peixoto e pelo piano e acordeão de Filipe Raposo. Com todos eles e com todos nós estiveram, claro está, os poetas, celebrados com palavras, com sons, com silêncios e com intimidade. Na tela montada no palco iam morando, vez à vez, a Sophia, o Alexandre O’Neill, o Cesariny, e a poesia até então na voz dos cantores era tomada pelos poetas, numa proximidade com quem na plateia estava que chegava a ser arrepiante. Outras presenças ou fragmentos poéticos marcaram o espaço de partilha no Cinema São Jorge: Fernando Pessoa, Eugénio de Andrade, Natália Correia, Florbela Espanca, Jorge de Sena, Camões, Ruy Belo, David Mourão Ferreira, Antero.

Um espectáculo musical único, de celebração da poesia, e que abre com chave de ouro o belíssimo festival que é este Festival Silêncio, onde de 15 a 25 de Junho, em diversos palcos da cidade de Lisboa, vai celebrar-se a palavra poética dita e o seu cruzamento com outras artes, desde a música ao cinema, passando pelas artes cénicas e vídeo.

Aqui ficam alguns fragmentos da noite:

 

Dão-nos um lírio e um canivete

e uma alma para ir à escola

(…)

Natália Correia

 

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

(…)

Fernando Pessoa

 

 (…) ter de existir num tempo de canalhas

de um umbigo preso à podridão de impérios

e à lei de mendigar favor dos grandes

 (…)

Jorge de Sena

 

É uma escada em caracol

E que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

Mas nunca passa do chão.

(…)                 

 Sobe-se numa corrida.

Corre-se p’rigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

A escada sem corrimão

David Mourão-Ferreira

 

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

(…)

Camões

13
Jun
11

O Sal da Língua sugere…iniciativas em torno de Eugénio, Pessoa e Al Berto

O Sal da Língua sugere…

A apresentação do ensaio de Federico Bertolazzi sobre o pensamento estético e a poética de Eugénio de Andrade –  “Noite e Dia da Mesma Luz”. Amanhã, dia 14, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, às 18h30. A apresentação estará a cargo de Fernando J.B. Martinho e será projectada uma vídeo-antologia de Eugénio de Andrade em que o poeta lê os seus poemas.

A realização do curso “Os livros esotéricos de Fernando Pessoa“. O curso sobre Fernando Pessoa será coordenado por José Manuel Anes e leccionado no auditório da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, entre as 18h30 e as 20h30, nos dias 20 e 27 de Junho e 4, 11, 18 e 25 de Julho de 2010.  curso, com vagas limitadas (80) tem uma “propina” de 40 euros, incluindo visita guiada à Quinta da Regaleira. A inscrição deve ser feita na Casa Fernando Pessoa, até 15 de Junho. No final do curso será entregue um diploma de participação.

 

O espectáculo de homenagem a Al Berto com o nome “Moradas do Silêncio”, integrado no Festival Silêncio e que terá lugar no Cinema São Jorge, em Lisboa, no dia 25 de Junho às 22h00. Sérgio Godinho, JP Simões, João Peste, Rui Reininho, Noiserv e Miguel Borges juntam-se para uma homenagem a Al Berto num espectáculo único e irrepetível. Em “Moradas do Silêncio” cada artista é convidado a apresentar três temas inspirados na obra do poeta ou relacionados com o imaginário da sua escrita. Neste espectáculo transdisciplinar cada intervenção será precedida por curtos interlúdios em que, sob texturas musicais de Noiserv, serão declamados poemas seleccionados pelo escritor Nuno Júdice. O vídeo será de João Pedro Gomes sobre imagens e fotografias do poeta, manipuladas por Tó Trips (Mackintóxico). A banda suporte será constituída por quatro elementos dos Rádio Macau: Flak, Filipe Valentim, Samuel Palitos e Alex Cortez.

13
Jun
11

6º Aniversário da morte de Eugénio

Eugénio de Andrade deu o corpo à terra há precisamente 6 anos. Outro corpo volveu à terra no mesmo dia do mesmo ano, o do escritor Manuel Tiago/Álvaro Cunhal.

Outro poeta português viria a sucumbir nesse mesmo dia 13 – Al Berto – ao passo que outro, décadas antes, havia de nascer eterno – Fernando Pessoa.

Hoje reunem-se todos na companhia de Eugénio.

 

Descer pela manhã até à folha, de Eugénio de Andrade

Descer pela manhã até à folha

dos álamos,

ser irmão duma estrela, ou filho,

ou talvez pai um dia doutra luz de seda,

 

ignorar as águas do meu nome,

as secretas bodas do olhar,

os cardos e os lábios da sede,

não saber

 

como se morre de tanto ser hesitação,

de tanto desejar

ser chama, arder assim de estrela

em estrela,

 

até ao fim.

 

In: Eugénio de Andrade. Branco no Branco.Editora Limiar

 
 

Incêndio, de Al Berto

se conseguires entrar em casa e

alguém estiver em fogo na tua cama

e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho

e do tecto cair uma chuva brilhante

contínua e miudinha – não te assustes

 

são os teus antepassados que por um momento

se levantaram da inércia dos séculos e vêm

visitar-te

 

diz-lhes que vives junto ao mar onde

zarpam navios carregados com medos

do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu

a morada de uma vida inteira e pede-lhes

para murmurarem uma última canção para os olhos

e adormece sem lágrimas – com eles no chão

 

In: Al Berto. Horto de Incêndio. Assírio & Alvim. 3ª edição

 
 

Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima, de Álvaro de Campos

Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima,

Começam chegando os primitivos da espera,

Já ao longe o paquete de África se avoluma e esclarece.

Vim aqui para não esperar ninguém,

Para ver os outros esperar,

Para ser os outros todos a esperar,

Para ser a esperança de todos os outros.

 

Trago um grande cansaço de ser tanta coisa.

Chegam osretardatários do princípio,

E de repente impaciento-me de esperar, de existir, de ser,

Vou-me embora brusco e notável ao porteiro que me fita muito mas rapidamente.

 

Regresso à cidade como à liberdade.

 

Vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir.

 

In: Fernando Pessoa. Livro de Viagem. Guerra & Paz

 
 

Excerto da novela Cinco Dias, Cinco Noites, de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal)

(…) Longe de veredas e povoados, a serra ondulava pedregosa e nua. Só aqui e além, ao fundo das encostas ou por detrás de cabeços, repousavam manchas macias de terra lavrada. Donde e quem vinha lavrá-la parecia um mistério em sítio tão desolado e ermo. Toda a tarde caminhavam, o Lambaça adiante, André atrás. Nem uma só vez avistaram um ser humano. Não fora o sol derramando luz no ar e nas coisas, não fora o ar límpido e leve, aquele deserto e aquele silêncio seriam intoleravelmente opressivos. Assim, a serra abria-se à intimidade, numa carícia tranquila e confiante. Mas, quando o sol começou a aproximar-se do horizonte, e os vales se diluíram em penumbras, e os cabeços e rebolos estenderam as sombras, e o ar começou a pesar de humidade e frio, então, sobranceira, a serra ganhou subitamente nova grandeza, como que olhando os intrusos com hostilidade. (…)

 

In: Manuel Tiago. Cinco Dias, Cinco Noites. Edições Avante 

11
Jun
11

Junho, o mês em que se nasce e se morre

No próximo dia 13 de Junho completam-se 6 anos desde a morte de Eugénio de Andrade, os mesmos que se completam pela morte do escritor Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal). Anos antes, em 1997, também morria nesse dia o querido poeta Al Berto. Recuando nos séculos, o 13 de Junho seria, em contraste, o dia do nascimento do imenso Fernando Pessoa, no ano de 1888.

O Sal da Língua no dia 13 prestará homenagem aos três poetas e a Manuel Tiago, no entanto, por agora, aproveita para prestar homenagem a outros poetas e escritores portugueses para os quais Junho foi o mês da chegada, da partida ou de uma permanência diferente. São eles:

06 de Junho de 1848 – Nasce António Leal
09 de Junho de 1900 – Nasce José Gomes Ferreira
12 de Junho de 1945 – Nasce José Viale Moutinho
15 de Junho de 1970 – Morre Almada Negreiros

16 de Junho de 1986 – Morre David Mourão-Ferreira
18 de Junho de 2010 – Morre José Saramago




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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