Arquivo de Agosto, 2011

30
Ago
11

Escrito no muro

Procura a maravilha.

 

Onde a luz coalha

e cessa o exílio.

 

Nos ombros, no dorso,

nos flancos suados.

 

Onde um beijo sabe

a barcos e bruma.

 

Ou a sombra espessa.

 

Na laranja aberta

à língua do vento.

 

No brilho redondo

e jovem dos joelhos.

 

Na noite inclinada

de melancolia.

 

Procura.

 

Procura a maravilha.


In: Obscuro Domínio (1972)

12
Ago
11

O Verão, enfim…

Estou em vésperas de partir para o Verão, Eugénio acompanha-me a banhos e a caminhadas por cidades e serras e o Sal da Língua, esse, ficará ao vosso cuidado!

Até breve,

Raquel

Eugénio de Andrade (Fonte: LP Poemas de EA lidos pelo autor, Orfeu)

08
Ago
11

É um sopro

É um sopro de animal ferido

entrar dentro de ti – o tempo só

da luz atravessar

a sombra lancinante da cintura.

01
Ago
11

O Lugar dos Amigos – Mário de Carvalho

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 
 

Carta a Eugénio de Andrade, por Mário de Carvalho, 25.06.2005

Nunca na vida escrevi um poema e esta minha incapacidade não é aqui declarada para legitimar qualquer ufania. Outros tentaram, a maior parte com má estrela, mas ninguém lhes há-de tirar o mérito de se haverem dado à aventura, com mais ou menos consciência dos sagrados terrenos para onde partiam.

É que os poetas são feiticeiros. Aquela arte não está ao alcance de qualquer um. Abençoados à nascença, é-lhes conferido um Dom, que um dia germinará e dará acesso à fonte dos mistérios donde lhes vem o poder de ordenar mutações do mundo, de lhes roubar as coisas, a língua e os ritmos, para os transfigurar, e construir um mundo à parte, impregnado duma linguagem outra.

Tudo o que parece banal, rude, comezinho, pode ganhar grandeza e preço. E isso depende do toque mágico do feiticeiro que arregimenta e combina as palavras, como entes vivos, submetidos ao seu poder e regra.

Raramente os feiticeiros são bem compreendidos. Os poderes apreciam pouco o desafio, os povos deixam-se aprisionar pelo instante. De maneira que escrever poesia é sempre um sinal de resistência, uma afirmação de humanidade, uma esperança de salvação, não raro contra a vontade e o desinteresse dos outros. De quem é salvo.

Eu sempre tive um respeito, muito tecido de assombro e espanto, para com os grandes poetas que têm visões e poderes que eu não atinjo.

E Eugénio de Andrade é uma das minhas grandes referências, desde miúdo, em tempos difíceis, em tempos melhores. E para os que tempos fossem, apesar de tudo, melhores, também a sua poesia contribuiu, de par com um posicionamento cívico que nunca se conformou com tiranias e beleguins.

Não se lembrará, decerto, de uma minha visita a sua casa, na Foz, do cavalheirismo com que me recebeu, e de um colóquio que aí teve lugar, em que o Eugénio de Andrade quis ter a gentileza de participar. Falava-se sobre prosa, assunto que está ainda, embora pobremente, nos meus estreitos horizontes. E foi, numa intervenção serena, a palavra de Eugénio de Andrade que veio mostrar como a poesia pode valorizar a prosa, à maneira, sugiro eu, da têmpera, sem a qual o aço se desqualifica ou, até, se esboroa e desfaz. Falou-se de “Moby Dick” e a forma como o Eugénio de Andrade relembrou, entoando, o célebre “incipit” “Chamam-me Ismael…” traduziu, por si só, a intensidade daquelas primeiras linhas de uma obra em que o sublime é tocado. O sublime, matéria da sua especialidade.

Era isto que eu queria dizer-lhe, antes do meu abraço.

Mário de Carvalho




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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