11
Set
11

Memória doutro Rio

São muito vastas as noites de insónia, quase sempre atravessadas por um rio. Quando não chove, confusamente dispo-me atrás dos amieiros e abandono-me à corrente. Sigo para o sul, que é para onde correm todos os rios, pelo menos os meus.

Um dia, numa língua de areia, avistei dois corpos que se penetravam exasperados. Fiquei aterrado: primeiro pensei que ele a estava a matar, a seguir, que ambos estivessem a morrer, só depois percebi o que se passava, e o meu próprio corpo se exasperou. Quando acabaram, a mulher chorava e o homem quase lhe mijava em cima. Afastaram-se cada um para seu lado, sem trocarem palavra. Contei o que vira a um pastor que encontrei mais abaixo. Pouco mais velho era do que eu, mas mostrou-me como o prazer não tem forçosamente que ver com a culpa. Quem não sabe que os corpos também podem ser conjunção de águas felizes?

 

In: Memória Doutro Rio (1978)

Anúncios

2 Responses to “Memória doutro Rio”


  1. Setembro 12, 2011 às 2:21 pm

    Olá!
    Gostei do texto. Está muito bom!
    Descobri o seu blog por acaso. Também escrevo. Gostava que me desse a sua opiniao.
    Escrevo sob o pseudonimo de milkus wolf.
    O endreço do blog é o seguinte: http://wolfmilkus.worpress.com

    Obrigada

    • 2 Raquel Agra
      Setembro 12, 2011 às 8:44 pm

      Olá caro amigo,
      O texto é, como quase todos os que são publicados neste espaço, do Eugénio de Andrade.
      Obrigada pelo link que me enviou, onde escreve, vou ler com todo o prazer.
      Um abraço,
      Raquel


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Setembro 2011
S T Q Q S S D
« Ago   Out »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
2627282930  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 138,226 hits

%d bloggers like this: