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O lugar dos amigos – Pedro Eiras

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

Eugénio, de cor, por Pedro Eiras

26.06.2005

Não sei que acaso me governa, me dirige os dedos na procura do “cd”, coloca agora na aparelhagem Schubert, a “Winterreise“.

A que razão obedeço, para ouvir nestes dias de calor uma viagem de inverno? Mas já o frio entra nestas paredes e me amarrota.

Não assim o poeta. Nele o verão é inteiro como uma nudez que pudesse despir-se toda. Quer dizer: despir a própria pele.

Nudez de alguns frutos de Lawrence, de alguns quartos de Kavafis. Angelical, mas sem a ofuscação trágica de Rilke.

E contudo, descubro agora, foi por causa desse verão perdido que fui ouvir a “Winterreise“.

O poeta sabia o sol sem sombra. Eu permaneço entre o medo da sede. É inverno em Junho.

A poesia é dança para lá da coragem, eu escrevo em prosa.

Eugénio, de cor, de coração, incertamente na minha memória: “pensei: devíamos morrer assim. Assim: explodir no ar.” Talvez as palavras estejam erradas; o coração deve estar certo.

Há muito tempo, descobri em Eugénio esta verdade que nunca me abandonou. Explodir no ar: despir a pele e ser pássaro de vento.

Junho de 2005

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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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