Arquivo de Março, 2012

26
Mar
12

Amanhecer em Estremoz

Uma a uma a noite abria

à luz matinal das rolas

as minúsculas portas da alegria.

 

In: A Escrita da Terra (1974)

Vistas da Torre de Menagem do Castelo de Estremoz

Anúncios
21
Mar
12

O Sal da Língua comemora… o Dia Mundial da Poesia, o Dia Mundial da Floresta e o Dia da Árvore

O Sal da Língua deseja a todos um feliz dia da Poesia e um feliz dia da Floresta e da Árvore com um poema sobre árvores do poeta António Gedeão…

 

As árvores crescem sós. E a sós florescem.

 

Começam por ser nada. Pouco a pouco

se levantam do chão, se alteiam palmo a palmo.

 

Crescendo deitam ramos, e os ramos outros ramos,

e deles nascem folhas, e as folhas multiplicam-se.

 

Depois, por entre as folhas, vão-se esboçando as flores,

e então crescem as flores, e as flores produzem frutos,

e os frutos dão sementes,

e as sementes preparam novas árvores.

 

E tudo sempre a sós, a sós consigo mesmas.

Sem verem, sem ouvirem, sem falarem.

Sós.

De dia e de noite.

Sempre sós.

 

Os animais são outra coisa.

Contactam-se, penetram-se, trespassam-se,

fazem amor e ódio, e vão à vida

como se nada fosse.

 

As árvores, não.

Solitárias, as árvores,

exauram terra e sol silenciosamente.

Não pensam, não suspiram, não se queixam.

Estendem os braços como se implorassem;

com o vento soltam ais como se suspirassem;

e gemem, mas a queixa não é sua.

 

Sós, sempre sós.

Nas planícies, nos montes, nas florestas,

A crescer e a florir sem consciência.

 

Virtude vegetal viver a sós

E entretanto dar flores.

 

20
Mar
12

O Sal da Língua sugere…as comemorações do Dia Mundial da Poesia

O Sal da Língua sugere as comemorações programadas, de norte a sul do país, do Dia Mundial da Poesia, que se comemora a 21 de Março. Por Lisboa, são várias as iniciativas, das quais se destacam:

No Centro Cultural de Belém: As comemorações serão feitas, excepcionalmente, no dia 22 de Março, entre as 14:00 e as 20:30, incluindo: uma feira do livro de poesia, conferências, audição de DVDs de poetas, uma exposição de poesia visual e culminará com um espectáculo no Grande Auditório com a presença de Pedro Moutinho e Mafalda Arnauth, cantando poetas portugueses e de Luís Lucas e Luísa Cruz, que dizem poetas portugueses. Informações e programação completa aqui: http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/Literatura/Pages/DiaMundialdaPoesia.aspx

Na Casa Fernando Pessoa: Comemorações de 19 a 24 de Março, na Casa dos Poetas, com recitais, performances, feira do livro de poesia, leituras e debates. Informações e programação completa aqui: http://mundopessoa.blogs.sapo.pt/tag/agenda+mar%C3%A7o+12

No Teatro D. Maria II: O Teatro convida hoje, por ocasião do Dia Mundial da Poesia, Eduardo Lourenço para a partilha de alguns poemas dos principais poetas que povoam o seu imaginário. Mais informações aqui: http://www.teatro-dmaria.pt/TEIA/Detalhe.aspx?idc=1785&ids=70

17
Mar
12

Na morte de Carlos de Oliveira

É assim, nem sequer nos permitem o silêncio a que nos obrigaria morte tão próxima. O que nos pedem, a nós que não somos Goethe nem para lá caminhamos, é que da nossa dor façamos o poema. Mas para isso não estamos ainda preparados: só se escreve de olhos enxutos, e esta morte, a morte de um amigo que vem da nossa juventude, não se pode arrumar na gaveta enquanto alinhamos algumas sílabas que não sejam de todo indignas de um homem que foi, entre nós, dos raros a saber do seu ofício.

A sua prosa, a sua poesia – e em Carlos de Oliveira nem sempre é fácil distinguir uma da outra – , ao contrário de tanta produção nacional, com o tempo é que foi ganhando apuro e ardor. A sua poesia é outra depois de Cantata, os seus romances vão sendo outros à medida que os vai reescrevendo. Esta obsessão pelo rigor, esse minucioso trabalho de abelha, esta arte cujo empenhamento mais árduo é ser aprendizagem permanente, é o que mais gostamos nele. Foi assim que, graças ao seu «trabalho de plaina», certa declamação espúria e algumas apóstrofes cívicas foram ficando pelo caminho, e se erguem à altura dos nossos olhos as cintilações e os frémitos da sua poesia última. Para nossa alegria, se esta palavra tem neste momento qualquer sentido.


In: Os Afluentes do Silêncio (1968)

16
Mar
12

O Sal da Língua sugere…A Ilha Desconhecida de José Saramago

O Sal da Língua sugere o espectáculo de marionetas “A Ilha Desconhecida” de José Saramago, concebido e interpretado pelo marionetista francês Brice Coupey, considerado um dos melhores actores manipuladores de marioneta de luva francesa.

O conto A Ilha Desconhecida, de José Saramago, é transportado para o palco apenas por um actor central que, com o auxílio de objectos simples, se desdobra nas múltiplas personalidades, duas delas, as principais, representadas por marionetas, manipuladas ao vivo. Brice Coupey dá voz a esse conto de Saramago, expresso nas páginas que o autor português escreveu com a simplicidade e acutilância a que habituou os seus leitores, mantendo em aberto o convite à procura dos desejos mais profundos de cada um, mesmo quando estes empurram o homem a procurar uma ilha desconhecida, que todos dizem não existir. Um desafio actual, um combate diário!

A peça estará em cena no Teatro Viriato, em Viseu, hoje e amanhã, pelas 15 Horas e 21.30 Horas, respectivamente.

Em seguida, O Conto da Ilha Desconhecida será apresentado no Theatro Circo, em Braga, para representações nos dias 21 e 22 de Março, pelas 11 e 15 Horas.

Uma oportunidade diferente de viver Saramago através das palavras para miúdos e graúdos!

13
Mar
12

Matinalmente

Com a luz, com a cal

do verão entornada pela casa,

com essa música

tão amada e bárbara,

com a púrpura correndo

de colina em colina,

fazer uma coroa –

e de lágrimas cheia a taça

sagrar-te príncipe da vida.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

09
Mar
12

Deste modo ou de qualquer outro

A doçura da erva

alta

como cantar ao crepúsculo,

 

deste modo ou de qualquer outro,

cego

de procurar nos flancos

os vestígios do lume,

 

deixa-me dizer: quando a pedra

do verão era água

na tua boca

o meu nome era um barco,

 

sobre os ombros a

noite nua

no coração o rouxinol

da bruma,

 

éramos nós meu amor éramos nós,

ninguém nos via,

 

essa música

 

onde a terra respira.

 

In: Véspera da Água (1973)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Março 2012
S T Q Q S S D
« Fev   Abr »
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 140,312 hits