05
Mar
12

Não, não é ainda a inquieta

Não, não é ainda a inquieta

luz de março

à proa de um sorriso,

nem a gloriosa ascensão do trigo,

 

a seda de uma andorinha roçando

o ombro nu,

o pequeno e solitário rio adormecido

na garganta;

 

não, nem o cheiro acidulado e bom

do corpo, depois do amor,

pelas ruas a caminho do mar,

ou o despenhado silêncio

 

da pequena praça,

como um barco, o sorriso à proa;

 

não, é só um olhar.

 

In: Branco no Branco (1984)

 

 

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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