Arquivo de Janeiro, 2013

30
Jan
13

Narrativa da neve

Vem o vento

e ninguém sabe se virá mais cedo

o inverno. Vem e deixa no telhado

algumas sílabas.

O trabalho da boca para não morrer

É juntá-las, fazer um diadema, coroar

a neve, o azul da neve,

na mais frágil haste.

São coisas tuas:

cintilações a que chamas ave.


In: Ofício da Paciência (1994)

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19
Jan
13

O Sal da Língua comemora a premiação de Maria e Richard Zenith

O Sal da Língua comemora a atribuição do prémio Inês de Castro 2012, pelo livro Poesia Reunida (publicado em setembro passado e que foi uma das prendas que felizmente me calhou no sapatinho), à poetisa Maria do Rosário Pedreira. O júri do prémio integrou o catedrático de Letras José Carlos Seabra, o escritor Mário Cláudio, o poeta e ensaísta Fernando Guimarães, o tradutor e poeta Frederico Lourenço, e o escritor e crítico literário Pedro Mexia. O livro Poesia Reunida integra três livros já editados e que estão na estante lá de casa:  A Casa e o Cheiro dos Livros (1996), O Canto do Vento nos Ciprestes (2001) e Nenhum Nome Depois (2004), para além do inédito A Ideia do Fim. Quem gostar do formato blogueiro, pode acompanhá-la no Blogue Horas Extraordinárias.

O Sal da Língua comemora também a atribuição do Prémio Pessoa 2012 a Richard Zenith, norte-americano e radicado em Portugal desde 1987, investigador pessoano, tradutor de Camões, Sophia, Drummond e Antero para a língua inglesa, crítico literário e um dos curadores da exposição “Fernando Pessoa, Plural como o Universo”, que teve o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian.

Para “amostra”, o Sal da Língua deixa um dos muitos de Maria do Rosário Pedreira

Lê , são estes os nomes das coisas que
deixaste – eu, livros, o teu perfume
espalhado pelo quarto; sonhos pela
metade e dor em dobro, beijos por
todo o corpo como cortes profundos
que nunca vão sarar; e livros, saudade,
a chave de uma casa que nunca foi a
nossa, um roupão de flanela azul que
tenho vestido enquanto faço esta lista:

livros, risos que não consigo arrumar,
e raiva – um vaso de orquídeas que
amavas tanto sem eu saber porquê e
que talvez por isso não voltei a regar; e
livros, a cama desfeita por tantos dias,

uma carta sobre a tua almofada e tanto
desgosto, tanta solidão; e numa gaveta
dois bilhetes para um filme de amor que
não viste comigo, e mais livros, e também
uma camisa desbotada com que durmo
de noite para estar mais perto de ti; e, por

todo o lado, livros, tantos livros, tantas
palavras que nunca me disseste antes da
carta que escreveste nessa manhã, e eu,

eu que ainda acredito que vais voltar, que
voltas, mesmo que seja só pelos teus livros.

[in Poesia Reunida, Quetzal, 2012]

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14
Jan
13

Alguns dias de agosto

Não tardará a chegar ao fim

este agosto que te viu passar com a luz

a teus pés. Somos eternos, dizias.

Eu pensava antes na danação

da alma ao faltar-lhe o alimento

que lhe trazias. Agora a cidade vive

do peso incomensuravelmente morto

dos dias sem a tua presença. Deixo

a mão correr sobre o papel tentando

captar o eco de uma palavra,

um sinal de quem em qualquer parte

cintila, e confia ao vento o segredo

da nossa tão precária eternidade.


In: Os Sulcos da Sede (2001)

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"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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