Arquivo de Maio, 2013

27
Maio
13

O Sal da Língua comemora…Mia Couto Prémio Camões 2013

O Sal da Língua comemora a atribuição do prémio Camões 2013, o prémio literário mais importante da criação literária da língua portuguesa, ao biólogo e escritor moçambicano Mia Couto. O autor de livros como Raiz de OrvalhoTerra Sonâmbula A Confissão da Leoa é o segundo autor de Moçambique a ser distinguido, depois de José Craveirinha em 1991.

A escolha foi decidida por um júri integrado pela professora catedrática da Universidade Nova de Lisboa Clara Crabbé Rocha (filha de Miguel Torga, o primeiro galardoado com o Prémio Camões, em 1989) e o escritor e jornalista (director do Jornal de Letras) José Carlos Vasconcelos. E também os brasileiros Alcir Pécora, crítico e professor da Universidade de Campinas, e Alberto da Costa e Silva, embaixador e membro da Academia Brasileira de Letras, o escritor e professor universitário moçambicano João Paulo Borges Coelho e o escritor angolano José Eduardo Agualusa.

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09
Maio
13

Os pêssegos

Lembram adolescentes nus:

a doirada pele das nádegas

com marcas de carmim, a penugem

leve, mais encrespada e fulva

em torno do sexo distendido

e fácil, vulnerável aos desejos

de quem só o contempla e não ousa

aproximar dos flancos matinais

a crepuscular lentidão dos dedos.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

05
Maio
13

O lugar dos amigos…Alfredo Margarido

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

A casa: ninho e casulo, por Alfredo Margarido

26.06.2005

Ia dizer que me senti impelido a considerar os laços entre uma constante da poesia de Eugénio de Andrade e a relação que com ele comecei a estabelecer entre 1952 e 1954. Foi nesses anos que comecei a ser visitado em Viana do Castelo – onde se registava uma espécie de delegação do grupo surrealista de Lisboa, que contava também com a intervenção de Carlos Eurico da Costa – por alguém que começou por se apresentar como sendo o “inspector da Previdência Social José Fontinhas”. Não conhecia suficientemente então o Eugénio para estar a par da relação entre o inspector e o poeta, pelo que Eugénio acrescentou: “Olhe, se quiser cá vir pergunte simplesmente pelo Eugénio de Andrade.”

 

O que naturalmente fiz, apesar de estar um pouco surpreendido, pois creio que nesses anos começara a colaborar timidamente em revistas como os “Cadernos de Poesia” e a “Árvore”. Devo ao Eugénio, entre muito mais, a leitura atenta dos meus manuscritos, e a definição do meu beco sem saída: “O seu gosto pelas metáforas deve muito aos surrealistas, mas você não consegue dissimular o gosto pela precisão conceitual. Não poderá haver acordo entre os dois.” E não houve. E não há.

Nesses tempos, Eugénio de Andrade trazia no bolso uma pequena ficha de cartolina branca onde alguém – aluno de Arquitectura ou talvez já um arquitecto – tinha esquiçado o plano de uma casa de proporções modestas, que era uma das preocupações do Eugénio. Lembro-me também de termos discutido a viabilidade da construção numa das mesas do Café Américo, que era então o lugar onde se encontrava a oposição, misturando as várias correntes que caracterizavam uma cidade muito marcada pela rigidez das hierarquias sociais, que iam ressuscitando brasões, pedras de armas e títulos nobiliárquicos, uma boa parte dos quais inteiramente fantasistas.

Melhor informado do que eu podia pensar, o Eugénio sabia que eu trabalhava então numa empresa da construção civil e que me cabia a tarefa de organizar orçamentos. Mas, por mais que fizesse, não havia orçamento que pudesse ser satisfeito pelas parcas finanças do Eugénio de Andrade, que dependia de um vencimento modesto, que, todavia, lhe assegurava a independência que sempre quis manter. Ainda fizemos algumas viagens de reconhecimento, pois o Eugénio sonhava com a Apúlia no que não coincidia com o meu gosto, que manifestava mais interesse pela secção da costa entre Afife – onde reinava o Pedro Homem de Mello – e Moledo do Minho – onde já se instalara o António Pedro, que as contingências políticas tinham escorraçado de Lisboa. E já surgira o apetite marítimo do Ruben A., que também sonhava com uma casa onde pudesse ouvir e cheirar o mar. Melhor: como o Eugénio, queria uma casa no mar.

Se na poesia de Eugénio de Andrade se encontram muitas referências à casa, tantas vezes alada, devemos considerá-la como um emblema onde se misturam a socialização e a autonomia. O jogo das metáforas recorre tanto ao ninho como ao casulo, essas formas que autorizam a confusão entre os homens e os animais, aves ou insectos. Como se a casa fornecesse aos homens o invólucro indispensável à instalação em plena natureza, pois o que pode haver de mais natural do que os materiais da casa? Nem o homem pode ser surpreendido sem o recurso a esta instalação, que permite que os próprios “amantes sem dinheiro” encontrem a solidez do sobrado e a pulsão dos telhados onde as telhas podem voar como num desenho de Chagall. Infelizmente o prémio Camões só foi atribuído ao Eugénio em 2001: já era tarde para que a casa lhe permitisse dissolver-se entre vento e bruma, entre a palavra e a vaga.

 

Sobre Alfredo Margarido…

Ficcionista, ensaísta, poeta, crítico literário, jornalista, tradutor, artista plástico e estudioso de problemáticas africanas, Alfredo Margarido, iniciou a formação académica na Escola de Belas Artes do Porto. O exílio leva-o para Paris (1964), onde se forma na École des Haute Études en Sciences Sociales, cujos quadros posteriormente integra como investigador. Foi docente nas Universidades de Paris VII e VIII, de Amiens. Após o 25 de Abril de 1974, leccionou em universidades portuguesas, onde ministrou um diversificado leque de cadeiras e seminários. Também leccionou e proferiu conferências em várias universidades brasileiras. Nos anos 50 do século passado, vive em S. Tomé e depois em Angola onde, com Cruzeiro Seixas, foi responsável pelo Fundo das Casas Económicas. Expulso desse território, regressa a Lisboa e dedica-se ao jornalismo – dirigiu então o suplemento literário do Diário Ilustrado -, à crítica literária e às artes plásticas. Intervém no combate contra a ditadura e o colonialismo, investiga sobre literaturas africanas de língua portuguesa, traduz (Joyce, Nathalie Sarrautte, Steinbeck, Nietzche, Herman Melville, entre muitos outros) e constrói um percurso como criador literário. Inicia a sua obra literária como poeta com Poemas com Rosas, em 1953, editando em 1958, Poema Para Uma Bailarina Negra de inspiração surrealista. Na ficção, integra-se na tendência do noveau roman em Portugal com No Fundo Deste Canal (1960), A Centopeia (1961) e As Portas Ausentes (1963). Da vasta obra de Alfredo Margarido, muita da qual dispersa por jornais e revistas, destaque-se, no ensaio, Teixeira de Pascoais (1961), Negritude e Humanismo (1964), Jean Paul Sartre (1965), A Introdução ao Marxismo em Portugal (1975), Ensaio Sobre a Literatura das Nações Africanas (1980),Plantas e Conhecimento do Mundo nos Séculos XV e XVI (1989) em colaboração com Isabel Castro Henriques, As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos (1994) ou A Lusofonia e os Lusófonos: novos mitos portugueses (2000).

 




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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