O Sal da Língua

8º Aniversário do desaparecimento de Eugénio

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Eugénio de Andrade partiu com as aves há precisamente 8 anos. Outro poeta português desapareceu nesse mesmo dia 13 – Al Berto – ao passo que outro, há precisamente 125 anos, havia de nascer eterno – Fernando Pessoa.

Hoje reúnem-se novamente no Sal da Língua, na companhia de Eugénio.

Pela minha parte, quero agradecer as mais de 76000 visitas que o Sal da Língua já teve ao longo dos seus já cinco anos de existência. A missão renova-se, prestar homenagem à escrita luminosa de Eugénio de Andrade através da divulgação da sua vasta poesia e prosa. E o resto é vosso.

Ofício de Amar (Al Berto)

já não necessito de ti
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras
[galáxias, e
[o remorso

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
não, não preciso mais de mim
possuo a doença dos espaços incomensuráveis
e os secretos poços dos nómadas

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
deixei de estar disponível, perdoa-me
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo

Autopsicografia (Fernando Pessoa)

O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda

Gira a entreter a razão,

Esse comboio de corda

que se chama o coração.

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