Arquivo de Setembro, 2013

27
Set
13

O Sal da Língua sugere…António Ramos Rosa para sempre

O Sal da Língua celebra a poesia de António Ramos Rosa, um dos grandes poetas em língua portuguesa que nos deixou, esta semana, aos 88 anos.

“Na poesia de Eugénio de Andrade há a busca de um reino perdido, que tanto pode ser a infância ou o amor ou a realidade originária, que tantas vezes se consubstancia na terra.” António Ramos Rosa

Aqui fica o “Poema de um funcionário cansado”, até sempre António!

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

22
Set
13

Na orla do mar

Na orla do mar,

no rumor do vento,

onde esteve a linha

pura do teu rosto

ou só pensamento

(e mora, secreto,

intenso, solar,

todo o meu desejo)

aí vou colher

a rosa e a palma.

Onde a pedra é flor,

onde o corpo é alma.

 

In: Até amanhã (1956)

15
Set
13

80 000

O Sal da Língua chegou às 80 000 visitas. Agradeço a todos aqueles que fazem deste blogue um espaço de palavras a visitar e a revisitar. E a proposta permanece a mesma de há quase seis anos atrás: celebrar a poesia e a prosa de Eugénio de Andrade. O resto é vosso.

Deixo-vos com a música “Não canto porque sonho“, interpretada por Fausto Bordalo Dias e Zeca Afonso, do álbum “P’ro que der e vier”, baseada num poema de Eugénio de Andrade e com música de António Pedro Braga e Fausto Bordalo Dias.

03
Set
13

Respira devagar, respira

Respira devagar, respira

uma vez mais

o sopro reticente do silêncio;

não oiças a mutilada voz do chão:

não é o primeiro orvalho

que chama por ti;

não abras as portas todas à lenta

e velha e turva baba

da tristeza;

respira esse rumor: nem mar nem ave,

apenas um ardor que também morre,

devagar.

In: Contra a Obscuridade (1988)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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