Archive for the 'Eugénio de Andrade' Category

08
Out
17

Assis

Também tu,

também tu suspiras

por águas que lavem

o pranto, as feridas,

e se possível o mundo.

 

Suspiras, e ardes,

e contigo arde o ar.

Felizes os anjos:

em vez de suspiros

ouvem-te cantar.

26-1-87

In: Homenagens e outros Epitáfios

04
Out
17

O Sal da Língua sugere… As Mães, por Rui Oliveira

O Sal da Língua sugere, no dia de hoje, o poema “As mães”, do nosso querido Eugénio, dito por Rui Oliveira (https://www.youtube.com/watch?v=CwpETIdqDLk).

“(…) elas estão em toda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchts ou Beni Mellal, porque elas são as Mães.

O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua, a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.(…) Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-se com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E o que elas duram!(…)

Elas são as mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.”

 

19
Jan
17

O Sal da Língua comemora o Aniversário de Eugénio

Num dia como o de hoje, em 1923, na Póvoa de Atalaia, Fundão, nascia com o nome José Fontaínhas o nosso querido Eugénio. Em jeito de homenagem, aqui fica a composiçºao “Coração Habitado”, de Jorge Peixinho, inspirada no poema de Eugénio de Andrade. https://www.youtube.com/watch?v=tUnckPwkvM8

Coração Habitado

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Eugénio de Andrade, in “Até Amanhã”

15
Fev
16

Eugénio na tela

“Eugénio de Andrade, o Poeta”, Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade – Fundão, pintura Isabel Nunes

Eugénio de Andrade, o Poeta' Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade - Fundão, pintura Isabel Nunes

19
Jan
16

O Sal da Língua comemora o nascimento do seu poeta

O Sal da Língua comemora o nascimento do seu poeta Eugénio de Andrade que, num dia como o de hoje, no ano de 1923, nascia em Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, para nos alumiar com a sua poesia e prosa!

Em jeito de comemoração, a aldeia natal do poeta vai acolher um espaço interpretativo dedicado à sua vida e obra. Este foi o anúncio feito pela Câmara Municipal de Póvoa da Atalaia que, além do espaço que requalificará em honra do poeta, prevê igualmente a criação de uma rota pedestre que, ao longo de 4 Km, dará a conhecer a presença desta aldeia na obra de Eugénio de Andrade!

Mais informações aqui: http://www.noticiasaominuto.com/cultura/522042/aldeia-de-eugenio-de-andrade-acolhe-espaco-dedicado-ao-poeta

Parabéns ao nosso poeta e ao município de Póvoa de Atalaia por acarinhar e celebrar os seus!

 

21
Maio
15

Escrita da terra

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

In: Ostinato Rigore (1964)

15
Maio
15

O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal

deserto; que nem casa fosse;

só um lugar

onde o lume foi aceso, e à sua roda

se sentou a alegria; e aqueceu

as mãos; e partiu porque tinha

um destino; coisa simples

e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir

ao vento, ao rigor da invernia,

e certa manhã sentir os passos

de abril

ou, quem sabe?, a floração

dos ramos, que pareciam

secos, e de novo estremecem

com o repentino canto da cotovia.

In: Sal da Língua (1995)

11
Maio
15

A outra morada

É de Shumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

In: Rente ao Dizer (1992)

11
Jan
15

No aeroporto de Nova Iorque

Olha-me rapidamente num convite

que não aceito, a promessa de prazer

cai então em olhos menos fatigados,

mas por instantes pude surpreender

um campo matinal de trevos orvalhados.

In: Escrita da Terra (1974)

30
Nov
14

O Sal da Língua comemora Fernando Pessoa

O Sal da Língua assinala os 79 anos do desaparecimento dos poetas Pessoa, Caeiro, Campos, Reis, Soares e ainda os 21 anos de existência da Casa Fernando Pessoa. Para conhecer, a programação da Casa, que neste sábado tem um programa aberto ao público, a partir das 15h00, comemorativo dos 80 anos da edição de “Mensagem”. A edição da transcrição para Braille, da obra icónica de Pessoa, “Mensagem”, resulta do trabalho de mestrado do designer Bruno Brites. O lançamento desta edição surgiu de uma parceria com a Associação de Cegos Amblíopes de Portugal (ACAPO), segundo a CFP. A iniciativa inclui uma visita guiada à CFP, e a oitava sessão do projeto do grupo de teatro A Tenda, intitulado “Oito olhares sobre Mensagem”. O Sal da Língua deixa o poema “Tenho tanto sentimento” de Pessoa:

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

fernando-pessoa




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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