Archive for the 'O LUGAR DOS AMIGOS' Category

19
Jan
14

O Sal da Língua comemora…o nascimento de Eugénio e o lugar dos amigos

O Sal da Língua comemora este dia 19 de janeiro, a data em que Eugénio de Andrade, se fosse vivo, completaria a tenra idade de 91 anos. Em jeito de homenagem, aqui fica o lugar de um amigo, José Tolentino Mendonça, nada mais nada menos do que o lugar de algumas suas palavras no formato de crónica  e em que o último parágrafo é dedicado a Eugénio de Andrade.

O Sal da Língua dedica este texto a Maria João Sampaio pela partilha e pela simpatia das palavras.

“Menos de dois dólares”, José Tolentino Mendonça (Revista Expresso, 4 de janeiro de 2014)

A “pegada ecológica” diz muito acerca de nós: quantos recursos (e que recursos) hipotecamos para construir o que é o nosso estilo de vida, quais as necessidades que consideramos vitais e como as priorizamos, que tráfico de bens e serviços temos de colocar em funcionamento para realizar o nosso sonho (ou a nossa ilusão) de bem-estar. Os indicadores coincidem no seguinte: as sociedades avançadas geram uma inflação permanente de necessidades, indiferentes aos desequilíbrios que causam, e que são, em grande medida, não só de sustentabilidade ambiental mas de sustentabilidade espiritual. A verdade é que cada um de nós traz vazios por preencher, carências e interrogações submersas, desejos calcados que procura compensar de forma mais imediata. Não é propriamente de coisas que precisamos mas, à falta de melhor, condescendemos. À falta desse amor que nem sempre conseguimos, desse caminho mais aberto e solitário que evitamos percorrer, à falta dessa reconciliação connosco mesmo e com os outros que continuamente adiamos… O consumo desenfreado não é outra coisa que uma bolsa de compensações. As coisas que se adquirem são, obviamente, mais do que coisas: são promessas que nos acenam, são protestos impotentes por uma existência que não nos satisfaz, são ficções do nosso teatro interno. Os centros comerciais apresentam-se como pequenos paraísos, indolores e instantâneos. Infelizmente, de curtíssima duração também. Li há dias, e impressionou-me muito, que, quando Gandhi morreu, os bens materiais que deixou valiam menos de dois dólares. Voltei a ler para verificar se me tinha enganado: menos de dois dólares. Os bens espirituais e civis que legou ao futuro tinham, porém, uma dimensão incalculável. O que nos enfraquece não é, de facto, a escassez, mas a sobreabundância; não é a indagação, mas o ruído de mil respostas fáceis que conflituam; não é a frugalidade, mas sim o desperdício. O que nos enfraquece é não termos escutado até ao fim o que está por detrás da fome e da sede, da nossa urgência e da nossa fadiga, do atordoamento, dos medos ou da abstenção. Há aquela cena do filme de Steven Spielberg “A Lista de Schindler”. O ator Liam Neeson representa o papel do industrial alemão que salvou a vida a mais de mil judeus. Na cena final, os resgatados oferecem-lhe expressando a sua gratidão, uma aliança com uma frase do Talmude: “Aquele que salva uma vida, salva o mundo inteiro”. E a resposta de Oskar Schindler é inesquecível: “Podia ter feito mais. Não sei, eu… Podia ter salvo mais. Desperdicei tanto dinheiro com futilidades. Não fazes ideia. Se soubesses… Não fiz o suficiente. Este carro… Porque fiquei eu com ele? Alguém o teria comprado. Teria salvo dez pessoas, mais dez pessoas. Este alfinete! Duas pessoas! É de ouro. Podia ter salvo mais duas pessoas. Por isto… eu poderia ter salvo mais pessoas… e não o fiz”. Estamos condenados a uma dor assim? Mas há finais felizes. Lembro-me dos meses que antecederam a partida do poeta Eugénio de Andrade. Ele ficou internado longo tempo no hospital de Santo António, no Porto. Nessa altura, passei por lá algumas vezes a visitá-lo e só me recordo de ouvi-lo pedir uma coisa: que lhe trouxessem duas maçãs. Não para comer, obviamente, mas para ficar a olhá-las da cama, para sentir a cor, a textura, o perfume, para distinguir a sua forma no silêncio, para amá-las como se ama uma pintura de Cézanne. Acho que duas maçãs custam menos de dois dólares, não é verdade?

05
Maio
13

O lugar dos amigos…Alfredo Margarido

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

A casa: ninho e casulo, por Alfredo Margarido

26.06.2005

Ia dizer que me senti impelido a considerar os laços entre uma constante da poesia de Eugénio de Andrade e a relação que com ele comecei a estabelecer entre 1952 e 1954. Foi nesses anos que comecei a ser visitado em Viana do Castelo – onde se registava uma espécie de delegação do grupo surrealista de Lisboa, que contava também com a intervenção de Carlos Eurico da Costa – por alguém que começou por se apresentar como sendo o “inspector da Previdência Social José Fontinhas”. Não conhecia suficientemente então o Eugénio para estar a par da relação entre o inspector e o poeta, pelo que Eugénio acrescentou: “Olhe, se quiser cá vir pergunte simplesmente pelo Eugénio de Andrade.”

 

O que naturalmente fiz, apesar de estar um pouco surpreendido, pois creio que nesses anos começara a colaborar timidamente em revistas como os “Cadernos de Poesia” e a “Árvore”. Devo ao Eugénio, entre muito mais, a leitura atenta dos meus manuscritos, e a definição do meu beco sem saída: “O seu gosto pelas metáforas deve muito aos surrealistas, mas você não consegue dissimular o gosto pela precisão conceitual. Não poderá haver acordo entre os dois.” E não houve. E não há.

Nesses tempos, Eugénio de Andrade trazia no bolso uma pequena ficha de cartolina branca onde alguém – aluno de Arquitectura ou talvez já um arquitecto – tinha esquiçado o plano de uma casa de proporções modestas, que era uma das preocupações do Eugénio. Lembro-me também de termos discutido a viabilidade da construção numa das mesas do Café Américo, que era então o lugar onde se encontrava a oposição, misturando as várias correntes que caracterizavam uma cidade muito marcada pela rigidez das hierarquias sociais, que iam ressuscitando brasões, pedras de armas e títulos nobiliárquicos, uma boa parte dos quais inteiramente fantasistas.

Melhor informado do que eu podia pensar, o Eugénio sabia que eu trabalhava então numa empresa da construção civil e que me cabia a tarefa de organizar orçamentos. Mas, por mais que fizesse, não havia orçamento que pudesse ser satisfeito pelas parcas finanças do Eugénio de Andrade, que dependia de um vencimento modesto, que, todavia, lhe assegurava a independência que sempre quis manter. Ainda fizemos algumas viagens de reconhecimento, pois o Eugénio sonhava com a Apúlia no que não coincidia com o meu gosto, que manifestava mais interesse pela secção da costa entre Afife – onde reinava o Pedro Homem de Mello – e Moledo do Minho – onde já se instalara o António Pedro, que as contingências políticas tinham escorraçado de Lisboa. E já surgira o apetite marítimo do Ruben A., que também sonhava com uma casa onde pudesse ouvir e cheirar o mar. Melhor: como o Eugénio, queria uma casa no mar.

Se na poesia de Eugénio de Andrade se encontram muitas referências à casa, tantas vezes alada, devemos considerá-la como um emblema onde se misturam a socialização e a autonomia. O jogo das metáforas recorre tanto ao ninho como ao casulo, essas formas que autorizam a confusão entre os homens e os animais, aves ou insectos. Como se a casa fornecesse aos homens o invólucro indispensável à instalação em plena natureza, pois o que pode haver de mais natural do que os materiais da casa? Nem o homem pode ser surpreendido sem o recurso a esta instalação, que permite que os próprios “amantes sem dinheiro” encontrem a solidez do sobrado e a pulsão dos telhados onde as telhas podem voar como num desenho de Chagall. Infelizmente o prémio Camões só foi atribuído ao Eugénio em 2001: já era tarde para que a casa lhe permitisse dissolver-se entre vento e bruma, entre a palavra e a vaga.

 

Sobre Alfredo Margarido…

Ficcionista, ensaísta, poeta, crítico literário, jornalista, tradutor, artista plástico e estudioso de problemáticas africanas, Alfredo Margarido, iniciou a formação académica na Escola de Belas Artes do Porto. O exílio leva-o para Paris (1964), onde se forma na École des Haute Études en Sciences Sociales, cujos quadros posteriormente integra como investigador. Foi docente nas Universidades de Paris VII e VIII, de Amiens. Após o 25 de Abril de 1974, leccionou em universidades portuguesas, onde ministrou um diversificado leque de cadeiras e seminários. Também leccionou e proferiu conferências em várias universidades brasileiras. Nos anos 50 do século passado, vive em S. Tomé e depois em Angola onde, com Cruzeiro Seixas, foi responsável pelo Fundo das Casas Económicas. Expulso desse território, regressa a Lisboa e dedica-se ao jornalismo – dirigiu então o suplemento literário do Diário Ilustrado -, à crítica literária e às artes plásticas. Intervém no combate contra a ditadura e o colonialismo, investiga sobre literaturas africanas de língua portuguesa, traduz (Joyce, Nathalie Sarrautte, Steinbeck, Nietzche, Herman Melville, entre muitos outros) e constrói um percurso como criador literário. Inicia a sua obra literária como poeta com Poemas com Rosas, em 1953, editando em 1958, Poema Para Uma Bailarina Negra de inspiração surrealista. Na ficção, integra-se na tendência do noveau roman em Portugal com No Fundo Deste Canal (1960), A Centopeia (1961) e As Portas Ausentes (1963). Da vasta obra de Alfredo Margarido, muita da qual dispersa por jornais e revistas, destaque-se, no ensaio, Teixeira de Pascoais (1961), Negritude e Humanismo (1964), Jean Paul Sartre (1965), A Introdução ao Marxismo em Portugal (1975), Ensaio Sobre a Literatura das Nações Africanas (1980),Plantas e Conhecimento do Mundo nos Séculos XV e XVI (1989) em colaboração com Isabel Castro Henriques, As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos (1994) ou A Lusofonia e os Lusófonos: novos mitos portugueses (2000).

 

03
Ago
12

7º aniversário da morte de Eugénio

No passado dia 13 de junho assinalou-se mais um ano, o sétimo, desde a morte de Eugénio. O Sal da Língua não quis deixar de assinalar a data, ainda que com algum tempo de atraso, devido a mudanças pessoais que não têm permitido uma presença regular neste espaço. Todos os dias são de celebração da palavra, da poesia e da prosa de Eugénio, por isso deixo a homenagem prestada, a Eugénio, por Fernando Pinto do Amaral.

Para um retrato de Eugénio, por Fernando Pinto do Amaral

25.06.2005

São coisas muito frágeis – uma sede

a transformar-se em água ou num sorriso

aberto à flor da boca,

a música de um corpo enquanto é verão

e sobretudo a chama de um olhar

que se entrega à primeira alegria,

ao primeiro desejo.

Ele sabe, sempre soube que é difícil

ser fiel ao esplendor de tudo isso,

à melodia ou ao rumor

do sangue. É um segredo

roubado à terra ou à infância

como se a voz dançasse.

Confidente das aves quando chegam

do sul

ou cúmplice da luz que se demora

à passagem do vento,

mal o vejo daqui

e a sombra que se move entre os seus olhos

é a lição do dia quando morre,

esse rasto de lume que o sol deixa

a arder no mar.

06
Jul
12

O lugar dos amigos – Vasco Graça Moura

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

 

Eugénio e os pintores, por Vasco Graça Moura, 25.06.2005

 

sei de pintores que se inquietavam por

pressentirem uma relação entre a cor e a palavra.

era nos anos sessenta em s. lázaro, quando

a luz entardecia, muita gente se afadigava no

 

lento regresso a casa, as aves recolhiam e

eles sabiam que havia alguém para falar

das águas e das luas e da sombra

das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos

 

do silêncio. seria à mesa do café, numa

sala cheia de livros, num vão de escada a caminho

do atelier que lhe propunham essa

revisita das fontes, das perturbadas melancolias

 

que ele havia de dizer por palavras no papel.

mostravam-lhe os trabalhos, esperando as

justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever

a sua fome do real nas artes da pintura.

 

era o cruzar das solidões comovidas: tudo

seria reescrito, portuense, partilhado

com uma densa, irisada exactidão, lá onde

umas pétalas da música começam

 

a partir de uma cor ou de um murmúrio,

de um rosto ou de uma nuvem,

de uma explosão do sol, de uma agonia.

era nos anos sessenta, era em s. lázaro.

 

(In “Poesia 1997/2000”, Quetzal Editores)

//

02
Abr
12

O lugar dos amigos – Jorge Pinheiro

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

(texto de Jorge Pinheiro publicado na revista de poesia “Relâmpago”, n.º 15, Outubro de 2004, dedicado a Eugénio de Andrade)

O meu relacionamento com Eugénio de Andrade tem dois tempos completamente distintos: o primeiro, nos anos 60, quando, após o almoço, o grupo que gravitava em torno de Belas-Artes se reunia no Café de São Lázaro. Aí, a nossa troca de ideias não ultrapassava o que a cada um cabia na rodada de argumentos que circulavam em torno da mesa. Para além deste ritual do café, só acidentalmente nos encontrávamos em casa de algum amigo comum, e as conversas arrastavam-se na modorra emoliente, como é frequente nos serões rotineiros.

Entretanto, em 1976, transferi-me de Belas-Artes do Porto para Lisboa e a parte da semana em que estava no Porto deixava-me pouco tempo livre; acabou, assim, a tertúlia no Café São Lázaro, restando-nos, mas cada vez mais raros, os tais serões.

O segundo tempo deve-se a um amigo de ambos, o incansável José Cruz Santos – editor de sempre da obra de Eugénio de Andrade, seu devotado admirador e amigo – que, sabendo-me, também eu, sensível à sua poesia, me desafiou a “fazermos qualquer coisa” de parceria com o Eugénio.

A ideia foi germinando até se concretizar: seria um álbum, teria 15 poemas e outros tantos desenhos. Uma vez assente este ponto de partida, logo que nos foi possível reunimo-nos os três, a meu pedido, na sua casa da Foz.

Confesso que o meu propósito neste encontro, tão formalmente combinado, não era tanto afinar agulhas em relação ao álbum mas, principalmente, perscrutar algo vindo do próprio autor, cuja poesia eu conhecia bem. Porém, sempre me recusei a aceitá-la apenas espartilhada no estereótipo do “Poeta do sol, da cal, do corpo apolíneo, da linguagem simples”, etc., etc. Não sei se a obra do artista é apenas o resultado da reflexão do seu fruidor, mas, seja como for, decididamente, não era por este caminho que eu queria seguir para chegar aos desenhos, porque a tão apregoada simplicidade de linguagem dos seus poemas recorda-me, frequentemente, a aparente simplicidade

musical dos “Lieder” de Schubert, tão facilmente trauteáveis, mas onde se esconde, igualmente, uma sublinear e enorme complexidade.

Em suma, não pretendendo nenhum de nós a ilustração do que quer que fosse, mas, talvez, a construção de um discurso tão paralelo quanto possível à substância do conteúdo da poesia do autor, atrevi-me, em dada altura da conversa, a perguntar-lhe quais eram os seus “fantasmas”. Respondeu-me assim: “São o pastor, a criança e a mulher de negro.” Referia-se, obviamente, às camponesas da sua terra.

Perdoe-se-me a expressão: “fui buscar lã e voltei tosquiado”! Cada autor só sabe fazer, honestamente, aquilo de que tem necessidade e eu não estava, naquele período, necessitado de nenhum destes “fantasmas”.

Encurtando razões: não consegui, com grande mágoa minha e depois de imensas tentativas ao longo de meses, fazer um único desenho para o álbum. Acabei por fazer um retrato, embora não seja uma forma de expressão que tenha por hábito cultivar, mas como o Eugénio de Andrade tem uma “máscara” muito marcada… saiu. Enviei-lho acompanhado de uma carta onde tentei explicar-lhe as razões do meu insucesso em relação ao álbum.

Entretanto, no Natal, pediu-me que lhe desenhasse, para um cartão de cumprimentos aos amigos, um pássaro. Enviei-lhe um aviário com “croquis” de pássaros.

E passaram muitos meses.

Certo dia, quando regressei a casa, disseram-me que tinha telefonado, desejava falar comigo e estava muito doente! Infelizmente, eu já tinha conhecimento do seu estado de saúde. Telefonei-lhe de imediato porque o sabia já em casa e, então, tive o imenso privilégio de ouvir o Eugénio de Andrade, com uma voz absolutamente firme, ler-me, com a sua proverbial qualidade de leitura, aquele que, se não erro, terá sido, até hoje, o seu último poema:

“Também ele vai morrer, o verão.

Do verde ao vermelho

as maçãs ardem sobre a mesa.

Ardem de uma luz sua, mais madura.

E servem-me de espelho”

Ao longo da leitura, o desenho que me pedia agora, para o Natal, o Natal que só viria passado quase meio ano, ia-se-me construindo nos olhos.

A referência à morte, expressa no poema, em nada alterava, a meu ver, a imagem revivificadora da dinâmica de complementaridade cromática da alacridade do vermelho e do verde das maçãs, (que, afinal, lhe serviam de espelho).

“Tinha”, julgava eu, o desenho para o cartão!

Porém, no fim da leitura do poema, fez uma pausa longa e, num tom de voz baixo e pausado, ditou-me:

Hospital de Santo António, 21 de Julho de 2002.

Desabou-se-me o mundo!

Obviamente, eu sabia do seu internamento no Hospital de Santo António, da sua falta de saúde e, portanto, não era esse facto que iria condicionar, novamente, a minha capacidade de, a seu pedido, fazer um desenho.

Se da primeira vez os seus “fantasmas” não eram, naquele período da minha vida, suficientemente estimulantes para eu criar algo, agora, e subitamente, a conotação que teve – e sempre terá – a palavra “hospital” estilhaçou, em segundos, a imagem que se me foi construindo ao longo da leitura.

Tudo isto parece ridículo, mas a verdade é que, não sendo eu suficientemente pós-moderno para trabalhar à base de estratégias, mas, talvez romanticamente, apenas motivado por “necessidades interiores”, suei as estopinhas para conseguir acabar por fazer um simples e modestíssimo desenho para um cartão de cumprimentos, porque o desenho, a meu ver, contrariava o poema naquilo que eu lia como essencial.

Quando o enviei, coloquei-lhe o meu ponto de vista, abertamente. Não sei se pela gentileza que sempre tem tido para comigo, mandou imprimir o desenho e disse-me achar tudo bem.

Recentemente, porém, de novo José Cruz Santos decidiu oferecer “Uma prenda para Eugénio com algumas tulipas”, com a colaboração de muita gente das letras e das artes plásticas. Quando tive que escolher o poema que acompanharia mais este desenho, não hesitei um segundo: seria o “Poema à mãe” e, ao construir a imagem, julgo ter finalmente compreendido, pelo menos, um dos seus tais “fantasmas”: o fantasma primordial que me faz ler, sublinearmente, a nostalgia schubertiana?

Ainda não voltei a vê-lo.

Mas a sua poesia está sempre na minha companhia.

6 de Setembro de 2004

04
Mar
12

Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa, Pessoa…

Este fim-de-semana fui finalmente à Gulbenkian para ver a exposição Fernando Pessoa, Plural Como o Universo. E que prazer é reencontrar as palavras de Pessoa, Bernardo Soares, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos de uma forma tão apelativa e que tão facilmente transformamos num momento de intimidade, só nosso, com uma obra que nos lê de uma forma tão completa..

Esta exposição permite-nos reencontrar as palavras mas também o homem Fernando António Nogueira Pessoa, o seu percurso, a sua história familiar, a sua personagem multifacetada e a sua forma plural de olhar o mundo e a realidade que resultou numa obra poética universal.

O Sal da Língua presta assim uma homenagem sentida à poesia património de Fernando Pessoa deixando, como não podia deixar de ser, as suas palavras:

 

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem…

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras…

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo…

Alberto Caeiro

 

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive

Ricardo Reis

 

Em jeito de apontamento…

E uma vez que falamos de Pessoa, o Sal da Língua sugere um blogue divertidíssimo chamado “Pessoa para todas as ocasiões“, da autoria de Maria Filomena e Fernando Gouveia, onde Pessoa é citado a propósito de efemérides, estados de espírito, apontamentos do quotidiano ou, simplesmente, sensações.

27
Fev
12

O lugar dos amigos – gastão cruz

Neste “O lugar dos amigos” é dado espaço aos que melhor nos falam da vida de Eugénio – os seus colegas e amigos.

Transparência e sombra em Eugénio de Andrade, por Gastão Cruz

26.06.2005

O que tem sido dito e escrito sobre Eugénio de Andrade tende, muitas vezes, para a apresentação da sua poesia com uma tonalidade, se não única, largamente dominante: diurna, transparente, de uma harmonia sem dissonâncias. Ele próprio se definia como “um poeta solar”.

Lembro-me de o ouvir dizer, não há muitos anos, que o seu desejo de escrever diminuíra, já que começava a impor-se-lhe uma visão mais amarga da vida, determinada pelo envelhecimento, e não queria ceder à adopção de uma atitude que contrariava a verdadeira natureza da sua poesia. Apesar disso, ela irrompe, com terrível veemência, em alguns poemas escritos “às portas da velhice” – expressão usada no livro “O Sal da Língua”. Entre os poemas finais de “Rente ao Dizer”, por exemplo, uns quantos há que fazem parte dos mais sombrios que Eugénio alguma vez escreveu: “Fim de tarde em S. Lázaro”, “Versos de inverno”, “À boca do poço”, “Último poema”; ou “Cerco”, em que o corpo, “que foi afável/e crédulo e solar”, surge agora “distante e tão cercado/de apagadas águas”.

Não creio, todavia, que este modo menos diurno e solar de encarar o mundo, a vida e, acima de tudo, o corpo, seja exclusivo da última fase de Eugénio de Andrade. Já em escritos anteriores procurei mostrar como, desde sempre, na sua poesia existiram fortes contrastes, que encontram formulação particularmente expressiva num poema como “Litania”: “as mãos, de certo modo, irresponsáveis,/e contudo sombrias, e contudo transparentes”; “as palavras mordendo a solidão,/atravessadas de alegria e de terror”.

O valor atribuído ao corpo, ao desejo do corpo (“como se o teu corpo/fora a vida toda//o desejo hesita/em ser espada ou flor”), faz temer a sua perda, ou, mais exactamente, a perda do seu esplendor. Em “Mar de Setembro”, que o poeta publica em 1961, aos trinta e oito anos, já ele fala da juventude como coisa passada: “Diremos prado bosque/primavera,/e tudo o que dissermos/é só para dizermos/que fomos jovens.”

Não se tem, talvez, também reparado muito como, naquele que continua a ser, porventura, o seu livro mais emblemático, “As Mãos e os Frutos”, o grande livro de exaltação do corpo amoroso e do desejo (“Foi para ti que deitei no chão/um corpo aberto como os animais.”), a noite (“Só sei que passo aqui a tarde inteira/tecendo estes versos e a noite/que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.”), a solidão (“Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.”), a sombra (“A tua vida é uma história triste./ A minha é igual à tua./Presas as mãos e preso o coração,/enchemos de sombra a mesma rua.”), a própria morte (“Em cada fruto a morte amadurece”), têm uma presença decisiva, que acentua a melancolia do poema (na verdade, de um só poema se trata) e o matiza com tonalidades elegíacas, como bem compreendeu Fernando Lopes Graça, no belíssimo ciclo de melodias que, a partir dele, compôs (para quando a regravação, ou, pelo menos, a reedição da gravação existente?).

Eugénio esteve sempre bem consciente de que há duas faces na vida, uma diurna e outra nocturna. Quis vencer o “obscuro domínio”, “penetrar (…) na luz queimada”, rasgar a sombra, perder-se na face transbordante da vida: “Canção, vai para além de quanto escrevo/e rasga esta sombra que me cerca./Há outra face na vida transbordante:/que seja nessa face que me perca.” (“As Mãos e os Frutos”)

Mesmo nos últimos livros, por entre momentos de quase desespero, ressurge a vontade de salvar o corpo da dor da velhice, que é “doença da alma”. E este momentâneo regresso à crença no corpo como “exaltação”, ainda que passada, como “cristal” que importa preservar, proporciona-lhe poemas admiráveis; é o caso de “De ramo em ramo”, de “Ofício de Paciência” (1994): “Não queiras transformar/em nostalgia/o que foi exaltação,/em lixo o que foi cristal./A velhice,/o primeiro sinal/de doença da alma,/às vezes contamina o corpo./Nenhum pássaro/permite à morte dominar/o azul do seu canto./Faz como eles: dança de ramo/em ramo.” Ou, no mesmo livro, “O lugar mais perto”: “O corpo nunca é triste;/o corpo é o lugar/mais perto onde o lume canta./É na alma que a morte faz a casa.”

Fiel, até o fim, ao seu destino de poeta solar, Eugénio jamais ignorou que a amizade íntima com o sol, de que falou Luís Miguel Nava, estava permanentemente ameaçada, sendo preciso lutar por ela. Porque esse “sol” não era, afinal, senão o próprio corpo, astro vulnerável ao tempo e à sua passagem.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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