Archive for the 'O SAL DA LÍNGUA COMEMORA' Category

19
Jan
17

O Sal da Língua comemora o Aniversário de Eugénio

Num dia como o de hoje, em 1923, na Póvoa de Atalaia, Fundão, nascia com o nome José Fontaínhas o nosso querido Eugénio. Em jeito de homenagem, aqui fica a composiçºao “Coração Habitado”, de Jorge Peixinho, inspirada no poema de Eugénio de Andrade. https://www.youtube.com/watch?v=tUnckPwkvM8

Coração Habitado

Aqui estão as mãos.
São os mais belos sinais da terra.
Os anjos nascem aqui:
frescos, matinais, quase de orvalho,
de coração alegre e povoado.

Ponho nelas a minha boca,
respiro o sangue, o seu rumor branco,
aqueço-as por dentro, abandonadas
nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

Alguns pensam que são as mãos de deus
— eu sei que são as mãos de um homem,
trémulas barcaças onde a água,
a tristeza e as quatro estações
penetram, indiferentemente.

Não lhes toquem: são amor e bondade.
Mais ainda: cheiram a madressilva.
São o primeiro homem, a primeira mulher.
E amanhece.

Eugénio de Andrade, in “Até Amanhã”

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19
Jan
16

O Sal da Língua comemora o nascimento do seu poeta

O Sal da Língua comemora o nascimento do seu poeta Eugénio de Andrade que, num dia como o de hoje, no ano de 1923, nascia em Póvoa da Atalaia, concelho do Fundão, distrito de Castelo Branco, para nos alumiar com a sua poesia e prosa!

Em jeito de comemoração, a aldeia natal do poeta vai acolher um espaço interpretativo dedicado à sua vida e obra. Este foi o anúncio feito pela Câmara Municipal de Póvoa da Atalaia que, além do espaço que requalificará em honra do poeta, prevê igualmente a criação de uma rota pedestre que, ao longo de 4 Km, dará a conhecer a presença desta aldeia na obra de Eugénio de Andrade!

Mais informações aqui: http://www.noticiasaominuto.com/cultura/522042/aldeia-de-eugenio-de-andrade-acolhe-espaco-dedicado-ao-poeta

Parabéns ao nosso poeta e ao município de Póvoa de Atalaia por acarinhar e celebrar os seus!

 

26
Abr
15

O Sal da Língua comemora… Abril

O Sal da Língua comemora a liberdade e o 25 de Abril, sempre. Pela liberdade de mudar, de decidir, de escrever, de viver! Neste dia, a poesia de alguns poetas que tão bem traduziram o espírito da mudança que se impunha rumo às liberdades!

A Rapariga do País de Abril

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Qaundo vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.

Manuel Alegre
30 Anos de Poesia
Publicações Dom Quixote

Com que então libertos, hein?

Com que então libertos, hein? Falemos de política,
discutamos de política, escrevamos de política,
vivamos quotidianamente o regressar da política à posse de cada um,
essa coisa de cada um que era tratada como propriedade do paizinho.
Tenhamos sempre presente que, em política, os paizinhos
tendem sempre a durar quase cinquenta anos pelo menos.
E aprendamos que, em política, a arte maior é a de exigir a lua
não para tê-la ou ficar numa fúria por não tê-la,
mas como ponto de partida para ganhar-se, do compromisso,
um boa lâmpada de sala, que ilumine a todos.
Com o país dividido quase meio século entre os donos da verdade e do poder,
para um lado, os réprobos para o outro só porque não aceitavam que
não houvesse liberdade, e o povo todo no meio abandonado à sua solidão
silenciosa, sem poder falar nem poder ouvir mais que discursos de salamaleque,
há que aprender, re-aprender a falar política e a ouvir política.
Não apenas pelo prazer tão grande de poder falar livremente
e poder ouvir em liberdade o que os outros nos dizem,
mas para o trabalho mais duro e mais difícil de — parece incrível —
refazer Portugal sem que se dissipe ou se perca uma parcela só
da energia represa há tanto tempo. Porque é belo e é magnífico
o entusiasmo e é sinal esplêndido de estar viva uma nação inteira.
Mas a vida não é só correria e gritos de entusiasmo, é também
o desafio terrível do ter-se de repente nas mãos
os destinos de uma pátria e de um povo, suspensos sobre o abismo
em que se afundam os povos e as nações que deixaram fugir
a hora miraculosa que uma revolução lhes marcou. Há que caminhar
com cuidado, como quem leva ao colo uma criança:
uma pátria que renasce é como uma criança dormindo,
para quem preparamos tudo, sonhamos tudo, fazemos tudo,
até que ela possa em segurança ensaiar os primeiros passos.
De todo o coração, gritemos o nosso júbilo, aclamemos gratos
os que o fizeram possível. Mas, com toda a inteligência
que se deve exigir do amadurecimento doloroso desta liberdade
tão longamente esperada e desejada, trabalhemos cautelosamente,
politicamente, para conduzir a porto de salvamento esta pátria
por entre a floresta de armas e de interesses medonhos
que, de todos os cantos do mundo, nos espreitam e a ela.

Jorge de Sena

SB, 2/5/1974

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

‘O Nome das Coisas’


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30
Nov
14

O Sal da Língua comemora Fernando Pessoa

O Sal da Língua assinala os 79 anos do desaparecimento dos poetas Pessoa, Caeiro, Campos, Reis, Soares e ainda os 21 anos de existência da Casa Fernando Pessoa. Para conhecer, a programação da Casa, que neste sábado tem um programa aberto ao público, a partir das 15h00, comemorativo dos 80 anos da edição de “Mensagem”. A edição da transcrição para Braille, da obra icónica de Pessoa, “Mensagem”, resulta do trabalho de mestrado do designer Bruno Brites. O lançamento desta edição surgiu de uma parceria com a Associação de Cegos Amblíopes de Portugal (ACAPO), segundo a CFP. A iniciativa inclui uma visita guiada à CFP, e a oitava sessão do projeto do grupo de teatro A Tenda, intitulado “Oito olhares sobre Mensagem”. O Sal da Língua deixa o poema “Tenho tanto sentimento” de Pessoa:

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

fernando-pessoa

06
Jul
14

O Sal da Língua comemora (hoje e sempre) Sophia

O Sal da Língua comemora a poesia de Sophia de Mello Breyner, no mês em que se completam 10 anos desde o seu desaparecimento (no dia 2 de julho de 2004). Numa publicação passada, datada de 30 de janeiro de 2011, tinha sido publicado neste blogue um poema feito pelo Eugénio e dedicado à poetisa Sophia, aproveito para relembrar esse poema e para deixar o manuscrito em que este foi escrito, pelo próprio Eugénio. Deixo também uma fotografia de Eugénio de Andrade com a poetisa e a escritora Agustina Bessa Luís, datada dos anos 50, e uma foto de Sophia com Eugénio e vários outros escritores e poetas portugueses.

Não sei porque floriram no meu rosto

os olhos e os rostos que há em ti.

Floriram por acaso, ao sol de agosto

sem mesmo haver agosto ou sol em mim.

Não sei porque floriram: se o orvalho as queima

(Ponho as mãos nos olhos para os proteger!)

Tão estranho! florirem no meu rosto

olhos e rostos que não posso ver.

Eugénio de Andrade, Fevereiro de 1946

 

Carta de Eugénio de Andrade com «Poema / para a Sofia Andresen», assinado e datado «Fev. 46»

Carta de Eugénio de Andrade com «Poema / para a Sofia Andresen», assinado e datado «Fev. 46» (Fonte: http://purl.pt/19841/1/galeria/textos/f11/foto1.html)

Sophia com Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade. Anos 50

Sophia com Agustina Bessa-Luís e Eugénio de Andrade. Anos 50 (Fonte: http://purl.pt/19841/1/1950/1950-2.html)

Sophia com amigos, na Casa de Mateus, anos 80. De trás para a frente e da esquerda para a direita: Andrée Rocha, Vasco Graça Moura, Miguel Torga, Graça Seabra Gomes, Alberto Pimenta; Eugénio de Andrade, Sophia, Pedro Tamen, Helena Vaz da Silva; Alexandre O’Neill, Clara Rocha, Fernando Guimarães; Fernando Albuquerque, M. de Lourdes Guimarães, (?), Francisco Sousa Tavares, (?)

Sophia com amigos, na Casa de Mateus, anos 80. De trás para a frente e da esquerda para a direita: Andrée Rocha, Vasco Graça Moura, Miguel Torga, Graça Seabra Gomes, Alberto Pimenta; Eugénio de Andrade, Sophia, Pedro Tamen, Helena Vaz da Silva; Alexandre O’Neill, Clara Rocha, Fernando Guimarães; Fernando Albuquerque, M. de Lourdes Guimarães, (?), Francisco Sousa Tavares, (?) (Fonte: http://purl.pt/19841/1/1980/galeria/f12/foto1.html)

 

 

14
Jun
14

13 de junho. 9 anos do desaparecimento de Eugénio

Ontem assinalou-se mais um ano do desaparecimento de Eugénio de Andrade, que voou com as aves há precisamente 9 anos, a 13 de junho de 2005, no mesmo dia do escritor Álvaro Cunhal. Neste dia e ano também se assinalaram os 17 anos do desaparecimento do poeta Al Berto e os 126 anos do nascimento do imenso Fernando Pessoa.

Na Biblioteca Municipal Eugénio de Andrade, no Fundão,  lançaram-se ontem dois livros sobre o poeta: “Eugénio de Andrade: Uma Vida Por Um Só Verso”, de António Oliveira, um investigador, doutorado em Literatura, que fez diversos estudos sobre a poesia em geral e que fez várias comunicações sobre Eugénio de Andrade, tendo inclusive publicado dois ensaios sobre o poeta, evoca a vida e poesia de Eugénio e “O Génio de Andrade”, de Arnaldo Saraiva, que reúne um conjunto de ensaios inéditos de Arnaldo Saraiva sobre o poeta nascido na Póvoa de Atalaia.

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A Biblioteca Municipal do Porto, cidade onde o poeta viveu, dinamiza na data de hoje, 14 de junho, o percurso cultural “O Porto de Eugénio”, do Jardim de São Lázaro até ao Campo 24 de agosto, parando nalguns pontos para a leitura de poemas de Eugénio dedicados à cidade onde viveu por mais de 40 anos.

 

18
Maio
14

O Sal da Língua comemora… Vasco Graça Moura

O Sal da Língua comemora a poesia de Vasco Graça Moura, que partiu no mês passado, aos 72 anos de idade, mas que nos deixou de herança um património riquíssimo entre o qual figura a poesia.

Nada melhor, para homenagear o poeta no Sal da Língua, que:

– uma fotografia divulgada pelo Jornal Público (edição Porto de dia 28 de abril de 2014), em que figura ao lado de outros queridos poetas portugueses: Pedro Tamen,Alberto Pimenta, Alexandre O’Neill, Miguel Torga e o nosso Eugénio de Andrade.

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– um dos seus muitos poemas, lamento por diotima (In Poesia, 1963-1995, Círculo de Leitores, 2001, p. 402).

o que vamos fazer amanhã
neste caso de amor desesperado?
ouvir música romântica
ou trepar pelas paredes acima?
amarfarnhar-nos numa cadeira
ou ficar fixamente diante
de um copo de vinho ou de uma ravina?
o que vamos fazer amanhã
que não seja um ajuste de contas?
o que vamos fazer amanhã
do que mais se sonhou ou morreu?
numa esquina talvez te atropelem,
num relvado talvez me fuzilem,
o teu corpo talvez seja meu,
mas o que vamos fazer amanhã
entre as árvores e a solidão?
– e umas palavras do escritor e amigo Eduardo Pitta publicadas no seu blogue Da Literatura aquando da sua morte:
“Mesmo esperada, a morte de um amigo é sempre intolerável. Vasco Graça Moura morreu hoje (27 de abril) de manhã. Tinha 72 anos. Poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor, deixa uma obra que marca o século XX português. Actual presidente da Fundação Centro Cultural de Belém, Graça Moura ocupou nos últimos quarenta anos diversos cargos institucionais. Duas vezes secretário de Estado, primeiro da Segurança Social, depois dos Retornados (nos 4.º e 5.º governos provisórios, respectivamente); director de programas da RTP; presidente da Imprensa Nacional / Casa da Moeda (a ele se devendo a edição portuguesa, em 41 volumes, da enciclopédia Einaudi); presidente da Comissão Executiva das Comemorações do Centenário de Fernando Pessoa; comissário-geral de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha; presidente da Comissão Nacional dos Descobrimentos (1988-95); director da revista Oceanos; director da Fundação Casa de Mateus; membro do conselho-geral da Comissão Nacional da UNESCO; director do Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian (1996-99) e também consultor da FLAD. Deputado ao Parlamento Europeu durante dez anos (1999-2009), eleito nas listas do PSD. Além de diversos prémios literários, em Portugal e no estrangeiro, recebeu em 1995 o Prémio Pessoa. Há três meses foi-lhe outorgada a Grã-Cruz da Ordem de Santiago da Espada. Homem de convicções fortes, à Direita, nunca se preocupou com a ideologia dos seus pares.
Várias vezes compilada, a obra poética [1962-2010] encontra-se disponível em dois volumes que a Quetzal publicou em Outubro de 2012 com o título de Poesia Reunida. Escrevi muito sobre ela, não me vou repetir. Graça Moura publicou ainda seis romances, dezenas de volumes de ensaio e dois de crónicas. Entre outros, traduziu Dante — A Divina Comédia entrou no património da língua portuguesa —, Petrarca, Shakespeare (os sonetos), Ronsard, Villon, Corneille, Molière, Racine, Rilke, Lorca, Enzensberger, Gottfried Benn, Seamus Heaney e Tomas Tranströmer. Foi o mais consistente opositor do Acordo Ortográfico de 1990, tema a que dedicou o ensaio Acordo Ortográfico: a Perspectiva do Desastre (2008), que publiquei neste blogue antes da sua impressão em volume. À família e, em particular, a Maria Bochicchio, apresento condolências. Até sempre, Vasco.”

 




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Outubro 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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