Archive for the 'Aquela Nuvem e Outras (1986)' Category

04
Dez
11

Velho, velho, velho

Velho, velho, velho

chegou o Inverno.

 

Vem de sobretudo,

vem de cachecol,

o chão por onde passa

parece um lençol.

 

Esqueceu as luvas

perto do fogão,

quando as procurou,

roubara-as o cão.

 

Com medo do frio,

encostou-se a nós:

dai-lhe café quente,

senão perde a voz.

 

Velho, velho, velho

chegou o Inverno.


In: Aquela Nuvem e Outras (1986)

06
Fev
11

Adivinha

Não é galo nem galão,

nem padre nem sacristão:

é um animal esquisito,

entre peru e pavão,

tem barbas ruivas de milho,

tem olhos de crocodilo,

rabo de rato ou de cão,

ão  ão  ão!

In: Aquela Nuvem e Outras (1986)

01
Jun
10

Um, dois, três

O Sal da Língua deseja a todos Um Feliz Dia da Criança!

Um, dois, três.

lá vai outra vez

o gato maltês

a correr atrás

da franga pedrês,

talvez a mordesse

apenas no pé,

o sítio ao certo

não sei bem qual é

(quatro, cinco, seis),

ou só lhe arranhasse

a ponta da crista,

e talvez nem isso,

seria só susto,

ou nem sequer mesmo

foi susto nenhum:

sete, oito, nove,

para dez falta um.

15
Nov
09

Gatos

Gato dos quintais
Gato dos portões,
Gato dos quartéis
Gato das pensões.

Vêm da Índia, da Pérsia,
De Ninive, Alexandria.
Vêm do lado da noite,
Do oiro e rosa do dia.

Gato das duquesas,
Gato das meninas,
Gato das viúvas,
Gato das ruínas.

Gatos e gatos e gatos.
Arre, que já estamos fartos!

Um bom domingo para todas as crianças!!!
Para este Natal: www.unicef.pt
01
Jun
09

A rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar
e convidar para um chá
na casa breve do poema.
O melhor é não falar:
sorrir-lhes só da janela.

Deixo hoje um poema do livro infantil de Eugénio de Andrade, "Aquela nuvem e outras", a assinalar no Sal da Língua o dia 1 de Junho, o dia da Criança!
23
Abr
09

A formiga

Sete palmos, sete metros,

anda a formiga por dia

(sete palmos a correr,

sete metros devagar),

só para lamber o mel

que lentamente escorria

quer da boca quer do pão,

quer dos dedos do Miguel.

 

Eugénio de Andrade por Graça Martins

Eugénio de Andrade por Graça Martins

12
Mar
09

Não quero, não

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

 

Quero um cavalo só meu,

seja baio ou alazão,

sentir o vento na cara,

sentir a rédea na mão.

 

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.

 

Não quero muito do mundo:

quero saber-lhe a razão,

sentir-me dono de mim,

ao resto dizer que não.

 

Não quero, não quero, não,

ser soldado nem capitão.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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