Archive for the 'POESIA' Category

08
Out
17

Assis

Também tu,

também tu suspiras

por águas que lavem

o pranto, as feridas,

e se possível o mundo.

 

Suspiras, e ardes,

e contigo arde o ar.

Felizes os anjos:

em vez de suspiros

ouvem-te cantar.

26-1-87

In: Homenagens e outros Epitáfios

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21
Maio
15

Escrita da terra

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

In: Ostinato Rigore (1964)

15
Maio
15

O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal

deserto; que nem casa fosse;

só um lugar

onde o lume foi aceso, e à sua roda

se sentou a alegria; e aqueceu

as mãos; e partiu porque tinha

um destino; coisa simples

e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir

ao vento, ao rigor da invernia,

e certa manhã sentir os passos

de abril

ou, quem sabe?, a floração

dos ramos, que pareciam

secos, e de novo estremecem

com o repentino canto da cotovia.

In: Sal da Língua (1995)

11
Maio
15

A outra morada

É de Shumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

In: Rente ao Dizer (1992)

11
Jan
15

No aeroporto de Nova Iorque

Olha-me rapidamente num convite

que não aceito, a promessa de prazer

cai então em olhos menos fatigados,

mas por instantes pude surpreender

um campo matinal de trevos orvalhados.

In: Escrita da Terra (1974)

12
Set
14

Que voz lunar?

 Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

 

In: Mar de Setembro (1961)

10
Set
14

Rosto afogado

Para sempre um luar de naufrágio

anunciará a aurora fria

Para sempre o teu rosto afogado,

entre retratos e vendedores ambulantes,

entre cigarros e gente sem destino,

flutuará rodeado de escamas cintilantes.

 

Se me pudesse matar,

seria pela curva doce dos teus olhos,

pela tua fronte de bosque adormecido,

pela tua voz onde sempre amanhecia,

pelos teus cabelos onde o rumor da sombra

era um rumor de festa,

pela tua boca onde os peixes se esqueciam

de continuar a viagem nupcial.

Mas a minha morte é este vaguear contigo,

na parte mais débil do meu corpo,

com uma espinha de silêncio

atravessada na garganta.

 

Não sei se te procuro ou se me esqueço

de ti quando acaso me debruço

nuns olhos subitamente acesos

ao dobrar de uma esquina,

na boca dos anjos embriagados

de tanta solidão bebida pelos bares,

nas mãos levemente adolescentes

pousadas na indolência dos joelhos.

Quem me dirá que não é verdade

o teu rosto afogado, o teu rosto perdido,

de sombra em sombra, nas ruas da cidade?

 

Ninguém te conheceu,

ninguém viu romper a luz na tua cama,

ninguém sabe, nnguém,

que o teu corpo, continente selvagem,

se desvelava por uma pedra branca

atirada contra o nevoeiro.

 

Por isso escrevo esta elegia

como quem oferece a luz dos olhos;

por isso canto o teu rosto afogado

como quem canta um funeral de espigas.

 

In: As Palavras Interditas (1951)




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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