Archive for the 'As Palavras Interditas (1951)' Category

10
Set
14

Rosto afogado

Para sempre um luar de naufrágio

anunciará a aurora fria

Para sempre o teu rosto afogado,

entre retratos e vendedores ambulantes,

entre cigarros e gente sem destino,

flutuará rodeado de escamas cintilantes.

 

Se me pudesse matar,

seria pela curva doce dos teus olhos,

pela tua fronte de bosque adormecido,

pela tua voz onde sempre amanhecia,

pelos teus cabelos onde o rumor da sombra

era um rumor de festa,

pela tua boca onde os peixes se esqueciam

de continuar a viagem nupcial.

Mas a minha morte é este vaguear contigo,

na parte mais débil do meu corpo,

com uma espinha de silêncio

atravessada na garganta.

 

Não sei se te procuro ou se me esqueço

de ti quando acaso me debruço

nuns olhos subitamente acesos

ao dobrar de uma esquina,

na boca dos anjos embriagados

de tanta solidão bebida pelos bares,

nas mãos levemente adolescentes

pousadas na indolência dos joelhos.

Quem me dirá que não é verdade

o teu rosto afogado, o teu rosto perdido,

de sombra em sombra, nas ruas da cidade?

 

Ninguém te conheceu,

ninguém viu romper a luz na tua cama,

ninguém sabe, nnguém,

que o teu corpo, continente selvagem,

se desvelava por uma pedra branca

atirada contra o nevoeiro.

 

Por isso escrevo esta elegia

como quem oferece a luz dos olhos;

por isso canto o teu rosto afogado

como quem canta um funeral de espigas.

 

In: As Palavras Interditas (1951)

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21
Abr
12

Elegia e destruição

Desse tempo em que se permanece criança

durante milhares de anos,

trouxe comigo um cheiro a resina;

trouxe também os juncos vermelhos

que ladeiam a orla do silêncio,

neste quarto, agora habitado pelo vento;

trouxe ainda um olhar húmido

onde os pássaros perpetuam o céu.

 

Dificilmente esqueço a rua onde encontrei

os teus olhos imensos, fascinados

pelo fulgor secreto das espadas,

a casa onde te contei, de mãos trémulas,

a parábola do pão e do vinho,

dando a cada palavra um rosto novo.

 

A cidade onde te amei foi decepada

e não posso abolir as sentinelas do medo.

Mas também não posso deixar de te querer

com beijos e relâmpagos,

com sonhos que tropeçam nas paredes

e se alimentam de terror e de alegria,

enquanto o tempo persiste em soluçar.

 

Que me quereis verdes sombras da lua

na minha cama onde adormece o frio?

Aqui estou, mais alto do que o trigo,

sangrando nas pétalas do dia

e sem receio de que aos nossos gritos

ainda chamem brisa.

 

In: As Palavras Interditas (1951)

17
Abr
11

Agora regresso à tua claridade

Agora regresso à tua claridade.

Reconheço o teu corpo, arquitectura

de terra ardente e lua inviolada,

flutuando sem limite na espessura

da noite cheirando a madrugada.

 

Acordaste na aurora, a boca rumorosa

dum desejo confuso de açucenas;

rosa aberta na brisa ou nas areias,

alta e branca, branca apenas,

e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

 

Estás de pé na orla dos meus versos

ainda quente dos beijos que te dei;

tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa

– como no tempo em que tinha medo

que tropeçasses numa gota de água.

In: As palavras interditas (1951)

30
Dez
09

Procuro-te

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

O "Sal da Língua" deseja a todos um ano de 2010 pleno de encontros e de descobertas!
07
Abr
09

Canção

Hoje venho dizer-te que nevou

no rosto familiar que te esperava.

Não é nada, meu amor, foi um pássaro,

a casca do tempo que caiu,

uma lágrima, um barco, uma palavra.

 

Foi apenas mais um dia que passou

entre arcos e arcos de solidão;

a curva dos teus olhos que se fechou,

uma gota de orvalho, uma só gota,

secretamente morta na tua mão.

13
Mar
09

Não é verdade

Cai, como antigamente, das estrelas

um frio que se espalha na cidade.

Não é noite nem dia, é o tempo ardente

da memória das coisas sem idade.

 

O que sonhei cabe nas tuas mãos

gastas a tecer melancolia:

um país crescendo em liberdade,

entre medas de trigo e alegria.

 

Porém a morte passeia nos quartos,

ronda as esquinas, entra nos navios,

o seu olhar é verde, o seu vestido branco,

cheiram a cinza os seus dedos frios.

 

Entre um céu sem cor e montes de carvão

o ardor das estações cai apodrecido;

os mastros e as casas escorrem sombra,

só o sangue brilha endurecido.

 

Não é verdade tanta loja de perfumes,

não é verdade tanta rosa decepada,

tanta ponte de fumo, tanta roupa escura,

tanto relógio, tanta pomba assassinada.

 

Não quero para mim tanto veneno,

tanta madrugada varrida pelo gelo,

nem olhos pintados onde morre o dia,

nem beijos de lágrimas no meu cabelo.

 

Amanhece.

            Um galo risca o silêncio

desenhando o teu rosto nos telhados.

Eu falo do jardim onde começa

um dia claro de amantes enlaçados.

03
Dez
08

As palavras interditas

Os navios existem, e existe o teu rosto

encostado ao rosto dos navios.

Sem nenhum destino flutuam nas cidades,

partem no vento, regressam nos rios.

 

Na areia branca, onde o tempo começa,

uma criança passa de costas para o mar.

Anoitece. Não há dúvida, anoitece.

É preciso partir. É preciso ficar.

 

Os hospitais cobrem-se de cinza.

Ondas de sombra quebram nas esquinas.

Amo-te… E entram pela janela

as primeiras luzes das colinas.

 

As palavras que te envio são interditas

até, meu amor, pelo halo das searas;

se alguma regressasse, nem já reconhecia

o teu nome nas suas curvas claras.

 

Dói-me esta água, este ar que se respira,

dói-me esta solidão de pedra escura,

estas mãos nocturnas onde aperto

os meus dias quebrados na cintura.

 

E a noite cresce apaixonadamente.

Nas suas margens nuas, desoladas,

cada homem tem apenas para dar

um horizonte de cidades bombardeadas.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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