Archive for the 'Até Amanhã (1956)' Category

10
Mar
11

Metamorfoses da palavra

A palavra nasceu:

nos lábios cintila.

 

Carícia ou aroma,

mal pousa nos dedos.

 

De ramo em ramo voa,

na luz se derrama.

 

A morte não existe:

tudo é canto ou chama.

 

In: Até Amanhã (1956)

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06
Mar
09

Apenas um corpo

Respira. Um corpo horizontal,

tangível, respira.

Um corpo nu, divino,

respira, ondula, infatigável.

 

Amorosamente toco o que resta dos deuses.

As mãos seguem a inclinação

do peito e tremem,

pesadas de desejo.

 

Um rio interior aguarda.

Aguarda um relâmpago,

um raio de sol,

outro corpo.

 

Se encosto o ouvido à sua nudez,

uma música sobe,

ergue-se do sangue,

prolonga outra música.

 

Um novo corpo nasce,

nasce dessa música que não cessa,

desse bosque rumoroso de luz,

debaixo do meu corpo desvelado.

21
Jan
09

Quase madrigal

Os anjos que prometes são apenas

o rosto triste dos dias desolados.

Eu não prometo nada, sou alegria.

Aceito os anjos nos beijos que me dás,

pondo rosas nos teus dedos descuidados.

27
Nov
08

Coração habitado

Aqui estão as mãos.

São os mais belos sinais da terra.

Os anjos nascem aqui:

frescos, matinais, quase de orvalho,

de coração alegre e povoado.

 

Ponho nelas a minha boca,

respiro o sangue, o seu rumor branco,

aqueço-as por dentro, abandonadas

nas minhas, as pequenas mãos do mundo.

 

Alguns pensam que são as mãos de deus

  eu sei que são as mãos de um homem,

trémulas barcaças onde a água,

a tristeza e as quatro estações

penetram, indiferentemente.

 

Não lhes toquem: são amor e bondade.

Mais ainda: cheiram a madressilva.

São o primeiro homem, a primeira mulher.

E amanhece.

19
Nov
08

Serenata

Venho ao teu encontro a procurar

bondade, um céu de camponeses,

altas árvores onde o sol e a chuva

adormecem na mesma folha.

 

Não posso amar-te mais,

luz madura, espaço aberto.

Não posso dar-te mais do que te dou:

sangue, insónias, telegramas, dedos.

 

Aqui estou, fronte pura, rodeado

de sombra, de soluços, de perguntas.

Aceita esta ternura surda,

este jasmim aprisionado.

 

Nos meus lábios, melhor: no fogo,

talvez no pão, talvez na água,

para lá dos suplícios e do medo,

tu continuas: matinalmente.

27
Set
08

Canção desesperada

Nem os olhos sabem que dizer

a esta rosa de alegria,

aberta nas minhas mãos

ou nos cabelos do dia.

 

O que sonhei é só água,

água só, roxa de frio.

Nenhuma rosa cabe nesta mágoa.

Dai-me a sombra de um navio.

22
Ago
08

Juventude

Sim, eu conheço, eu amo ainda

esse rumor abrindo, luz molhada,

rosa branca. Não, não é solidão,

nem frio, nem boca aprisionada.

Não é pedra nem espessura.

É juventude. Juventude ou claridade.

É um azul puríssimo, propagado,

isento de peso e crueldade.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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