Archive for the 'Homenagens e outros Epitáfios (1974)' Category

08
Out
17

Assis

Também tu,

também tu suspiras

por águas que lavem

o pranto, as feridas,

e se possível o mundo.

 

Suspiras, e ardes,

e contigo arde o ar.

Felizes os anjos:

em vez de suspiros

ouvem-te cantar.

26-1-87

In: Homenagens e outros Epitáfios

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09
Dez
13

A Jorge de Sena, no chão da Califórnia

É por orgulho que já não sobes

as escadas? Terás adivinhado

que não gostei desse ajuste de contas

que foi a tua agonia?

É só por isso que não vieste

este verão bater-me à porta?

Não sabes já

que entre mim e ti

há só a noite e nunca haverá morte?

 

Não te faltou orgulho, eu sei;

orgulho de ergueres dia a dia

com mãos trementes

a vida à tua altura

− mas a outra face quem a suspeitou?

Quem amou em ti

o rapazito frágil, inseguro,

a irmã gentil que não tivemos?

 

Escreveste como o sangue canta:

de-ses-pe-ra-da-men-te,

e mostraste como não é fácil

neste país exíguo ser-se breve.

Talvez o tempo te faltasse

para pesar com mão feliz o ar

onde sobrou

um juvenil ardor até ao fim.

 

No que nos deixaste há de tudo,

desde o copo de água fresca

ao uivo de lobos acossados.

Há quem prefira ler-te os versos,

outros a prosa, alguns ainda

preferem o que sobre a liberdade

de ser homem

foste deixando por aí

em prosa ou verso, e tangível

brilha

onde antes parecia morta.

 

Às vezes orgulhavas-te

de ter, em vez de uma, duas pátrias;

pobre de ti: não tiveste nenhuma;

ou tiveste apenas essa

que te roía o coração,

fiel às palavras da tribo.

 

Andaste por muito lado a ver se o mundo

era maior do que tu – concluíste que não.

Tiveste mulher e filhos portuguesmente

repartidos pela terra,

e alguns amigos,

entre os quais me conto.

E se conta o vento.

 

Agosto, 78

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 

Mais sobre Jorge de Sena:

Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919, e faleceu em Santa Barbara, na Califórnia, a 4 de junho de 1978. É hoje considerado um dos grandes poetas de língua portuguesa e uma das figuras centrais da cultura do nosso século XX. Viveu no Brasil entre 1959 e 1965 e de 1965 até 1978, ano em que morreu, viveu nos Estados Unidos. A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte coletâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio (com destaque para os estudos sobre Camões e Pessoa, poetas com os quais a sua poesia estabelece um importante diálogo), à história e à teoria literária e cultural (os seus trabalhos sobre o Maneirismo foram pioneiros, tal como a sua história da literatura inglesa, e a sua visão comparatista e interdisciplinar das literaturas e das culturas foi extremamente fecunda), ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, de Portugal, do Brasil, da Espanha, da Itália, da França, da Alemanha, da Inglaterra ou dos Estados Unidos, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer em Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e ensaio (Chestov). (Fonte: Instituto Camões)

26
Jan
12

Casa de Álvaro Siza na Boa Nova

A musical ordem do espaço,
a manifesta verdade da pedra,
a concreta beleza
do chão subindo os últimos degraus,
a luminosa contenção da cal,
o muro compacto
e certo
contra toda a ostentação,
a refreada
e contínua e serena linha
abraçando o ritmo do ar,
a branca arquitectura
nua
até aos ossos.
Por onde entrava o mar.

11-5-92


In: Homenagens e outros Epitáfios (1974)

29
Jun
11

Retrato de rapariga (Gageiro, Alentejo, 1985)

… Um poema escrito a  propósito de um dos trabalhos do fotógrafo português Eduardo Gageiro…

 

Ela é na sua transparência

vegetal o rosto limpo da manhã,

o terreiro varrido pela luz

verde e ondulada do trigo,

a beleza concreta rente ao chão:

a infindável extensão da cal,

a lenta aproximação de um rio.

16.7.99

 

In: Homenagens e Outros Epitáfios (1974)

 
 
31
Jul
10

Arquitectura açoriana

Onde os olhos tocam a cal e a escura

pedra de basalto, é a perfeição:

a tão nobre e concreta arte do espaço

— casa, praça, palácio, rua,

convento, fortaleza, igreja,

com adros, portais, degraus,

rendas e rendas nas fachadas,

com janelas para o mar e varandas

para as aves —, arquitectura lavada,

onde a veemência da luz

concilia a terra imóvel

com a brusca paixão dos mastros.

Quando não é verde, a luz

destas ilhas é rosada.

20-7-92

O Sal da Língua embarca rumo às ilhas verdes e regressará  no fim do mês.

Entretanto, boas leituras e boas férias para todos.

11
Jul
10

Kavafis, nos anos distantes de 1903

Nenhum tão solitário mesmo quando

acordava com os olhos do amigo nos seus olhos

como este grego que nos versos se atrevia

a falar do que tanto se calava

ou só obliquamente referia –

nenhum tão solitário e tão atento

ao rumor do desejo e das ruas de Alexandria.

 1964

15
Jun
10

Discurso tardio à memória de José Dias Coelho

Éramos jovens: falávamos do âmbar

ou dos minúsculos veios de sol espesso

onde começa o vero; e sabíamos

como a música sobe às torres do trigo.

Sem vocação para a morte, víamos passar os barcos,

desatando um a um os nós do silêncio.

Pegavas num fruto: eis o espaço ardente

de ventre, espaço denso, redondo maduro,

dizias; espaço diurno onde o rumor

do sangue é um rumor de ave –

repara como voa, e poisa nos ombros

da Catarina que não cessam de matar.

Sem vocação para a morte, dizíamos. Também

ela, também ela a não tinha. Na planície

branca era uma fonte: em si trazia

um coração inclinado para a semente do fogo.

Morre-se de ter uns olhos de cristal,

morre-se de ter um corpo, quando subitamente

uma bala descobre a juventude

da nossa carne acesa até aos lábios.

Catarina, ou José – o que é um nome?

Que nome nos impede de morrer,

quando se beija a terra devagar

ou uma criança trazida pela brisa?

 

Mais sobre José Dias Coelho:

José Dias Coelho (Pinhel, 19 de Junho de 1923 — 19 de Dezembro de 1961) foi um militante político anti-fascista e escultor português. A sua carreira enquanto escultor é posta de parte quando opta pela luta anti-fascista e pela clandestinidade em 1955, o mesmo ano em que vê os primeiros sinais de reconhecimento público pelo seu trabalho artístico. Foi assassinado pela PIDE em 19 de Dezembro de 1961, na Rua da Creche, que hoje tem o seu nome, junto ao Largo do Calvário, em Lisboa. Nessa altura pertencia à Direcção da Organização Regional de Lisboa do Partido Comunista Português, e dirigia o Sector Intelectual. Presume-se que tenha sido denunciado. O seu assassinato levou o cantor Zeca Afonso a escrever e dedicar-lhe a música “A morte saiu à rua”. 

Só após o 25 de Abril foi possível levar a Tribunal os agentes da PIDE envolvidos na sua morte. Pertenciam à Brigada de José Gonçalves. Nunca confessaram a denúncia nem quem lhes dera ordens. Apenas um foi condenado – António Domingues -, o autor dos dois disparos que atingiram Dias Coelho. Mas a pena que lhe foi imputada – três anos e seis meses – indignou a comunidade democrática portuguesa no início de 1977.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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