Archive for the 'Mar de Setembro (1961)' Category

12
Set
14

Que voz lunar?

 Que voz lunar insinua

o que não pode ter voz?

 

Que rosto entorna na noite

todo o azul da manhã?

 

Que beijo de oiro procura

uns lábios de brisa e água?

 

Que branca mão devagar

quebra os ramos do silêncio?

 

In: Mar de Setembro (1961)

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28
Nov
11

Não perguntes

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.


In: Mar de Setembro (1961)

23
Maio
10

Ocultas águas

Um sopro quase,
Esses lábios.
 
Lábios? Disse lábios,
areias?
Lábios. Com sede
ainda de outros lábios.
 
Sede de cal.
Quase lume.
Lume
quase de orvalho.
 
Lábios:
ocultas águas.
21
Fev
10

Glosa

Que voz se desprende,

hesita, tropeça?

Que pedras tacteia,

que ramos alcança?

Que fonte pressente?

Que rio procura?

Que ritmo persegue,

que palavras ama?

Que sombras repele,

que luzes derrama?

05
Out
09

Serão palavras

Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens
 
Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração
 
Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.
06
Maio
09

Rumor

Quando o outono
já não pode senão melancolia
é que o secreto rumor da água
inunda os lábios de oiro.
02
Abr
09

À tua sombra

A terra me sabes,

à luz das manhãs

lisas de verão,

ao calor das pedras

achadas nas dunas.

Apetece cantar

nos gomos, nas luas,

nas colinas breves

do teu corpo nu;

cantar ou correr

na água, na seiva

dos ombros, dos braços,

no azul secreto

da concha das pernas.

Ó sabor eterno,

ó mortal sabor

das fontes da terra,

materno, solar

rumor de alegria:

apetece morrer,

morrer ou cantar.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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