Archive for the 'Obscuro Domínio (1972)' Category

15
Jun
14

Disssonâncias

Pedra a pedra

a casa vai regressar.

Já nos ombros sinto o ardor

da sua navegação.

 

Vai regressar

o silêncio com as harpas.

As harpas com as abelhas.

 

No verão morre-se

tão devagar à sombra dos ulmeiros!

 

Direi então:

Um amigo

é o lugar da terra

onde as maçãs brancas são mais doces.

 

Ou talvez diga:

O outono amadurece nos espelhos.

Já nos meus ombros sinto

A sua respiração.

Não há regresso: tudo é labirinto.

 

In: Obscuro Domínio (1972)

25
Jul
12

Plenamente

A boca,

 

onde o fogo

de um verão

muito antigo

 

cintila,

 

a boca espera

 

(que pode uma boca

esperar

senão outra boca?)

 

esperar o ardor

do vento

para ser ave,

 

e cantar.


In: Obscuro Domínio (1972)

30
Ago
11

Escrito no muro

Procura a maravilha.

 

Onde a luz coalha

e cessa o exílio.

 

Nos ombros, no dorso,

nos flancos suados.

 

Onde um beijo sabe

a barcos e bruma.

 

Ou a sombra espessa.

 

Na laranja aberta

à língua do vento.

 

No brilho redondo

e jovem dos joelhos.

 

Na noite inclinada

de melancolia.

 

Procura.

 

Procura a maravilha.


In: Obscuro Domínio (1972)

12
Abr
11

Retrato ardente

Entre os teus lábios

é que a loucura acode

desce à garganta,

invade a água.

 

No teu peito

é que o pólen do fogo

se junta à nascente,

alastra na sombra.

 

Nos teus flancos

é que a fonte começa

a ser rio de abelhas,

rumor de tigre.

 

Da cintura aos joelhos

é que a areia queima,

o sol é secreto,

cego o silêncio.

 

Deita-te comigo.

Ilumina meus vidros.

Entre lábios e lábios

toda a música é minha.

In: Obscuro Domínio (1972)

05
Jan
11

Em louvor do fogo

Um dia chega

de extrema doçura:

tudo arde

Arde a luz

nos vidros da ternura.

As aves

no branco

labirinto da cal.

As palavras ardem,

a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa

à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta

doçura da tarde.

In: Obscuro Domínio (1972)

26
Jul
10

Estribilhos

No interior da música

o silêncio

que regaço procura?

Que interior é esse

onde a luz

tem morada?

E há um interior,

assim como o caroço

dentro do fruto?

E como entrar nele?

É como num corpo?

25
Jul
10

Nas palavras

Respiro a terra nas palavras,

no dorso das palavras

respiro

a pedra fresca da cal;

respiro um veio de água

que se perde

entre as espáduas

ou as nádegas;

respiro um sol recente

e raso

nas palavras,

com lentidão de animal.

28
Ago
09

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver entre lábios fendidos
o ardor da luz orvalhada.
 
Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio flui
e se concentra.
 
Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada.
 
Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,
 
no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,
 
onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.
20
Maio
09

Tempo em que se morre

Agora é verão, eu sei.
Tempo de facas, tempo
em que se perdem os anéis
as cobras à míngua de água.
Tempo em que se morre
de tanto olhar os barcos.
 
É no verão, repito.
Estás sentada no terraço
e para ti correm todos os meus rios.
Entraste pelos espelhos:
mal respiras.
Vê-se bem que já não sabes respirar,
que terás de aprender com as abelhas.
 
Sobre os gerânios
te debruças lentamente.
Com rumor de água
sonâmbula ou de arbusto decepado
dás-me a beber
um tempo assim ardente.
 
Pousas as mãos sobre o meu rosto,
e vais partir
sem nada me dizer,
pois só quiseste despertar em mim
a vocação do fogo ou do orvalho.
 
E devagar, sem te voltares,
pelos espelhos entras na noite.
19
Mar
09

Véspera da água

Tudo lhe doía

de tanto que lhes queria:

 

a terra

e o seu muro de tristeza,

 

um rumor adolescente,

não de vespas

mas de tílias,

 

a respiração do trigo,

 

o fogo reunido na cintura,

 

um beijo aberto na sombra,

 

tudo lhe doía:

 

a frágil e doce e mansa

masculina água dos olhos,

 

o carmim entornado nos espelhos,

 

os lábios,

instrumentos da alegria,

 

de tanto que lhes queria:

 

os dulcíssimos melancólicos

magníficos animais amedrontados,

 

um verão difícil

em altos leitos de areia,

 

a haste delicada de um suspiro,

 

o comércio dos dedos em ruína,

 

a harpa inacabada

da ternura,

 

um pulso claramente pensativo,

 

lhe doía:

 

na véspera de ser homem,

na véspera de ser água,

o tempo ardido,

 

rouxinol estrangulado,

 

meu amor: amora branca,

 

o rio

inclinado

para as aves,

 

a nudez partilhada, os jogos matinais,

ou se preferem: nupciais,

 

o silêncio torrencial,

 

a reverência dos mastros,

no intervalo das espadas

 

uma criança corre

corre na colina

 

atrás do vento,

 

de tanto que lhes queria,

tudo tudo lhe doía.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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