Archive for the 'Ofício de Paciência (1994)' Category

30
Jan
13

Narrativa da neve

Vem o vento

e ninguém sabe se virá mais cedo

o inverno. Vem e deixa no telhado

algumas sílabas.

O trabalho da boca para não morrer

É juntá-las, fazer um diadema, coroar

a neve, o azul da neve,

na mais frágil haste.

São coisas tuas:

cintilações a que chamas ave.


In: Ofício da Paciência (1994)

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27
Maio
12

Narração inexacta da casa

A mais antiga e demorada

frase fala do mar logo de início,

no desejo de habitar

os flancos lentos da sua ondulação.

A narrativa torna-se depois

confusa: entre mastros e muros,

além do vento, corria o medo.

Que estranho amor levou

a fazer da casa um barco?

A cal e a pedra guardam o segredo.


In: Ofício da Paciência (1994)

 

O Sal da Língua, Eugénio e a Poesia agradecem as mais de 60 000 visitas ao longo destes quatro anos a este blogue.

15
Nov
11

Coroa de lume

Ouço-o partir, o sol da mão.

O prazer do ofício,

a paciência de areia

abrindo para os caminhos do verão,

também eles a chegar

ao fim. Foi assim que partilhei

o pão, o tão amado

sopro vindo do sul.

Não tardará o sono: já

começou na fala.

É tempo de atirar aos cães

a coroa de lume.


In: Ofício de Paciência (1994)

13
Mar
11

Coisas mudáveis

De tão luminosa, essa ferida

já nem dói – ó tão mudáveis

coisas vindas

na palavra, sucessiva

ondulação do mundo

latindo contra o coração,

vagas de sombra ou só de pedra,

 canção despedaçada

contra os vidros, fulva

vagabundagem de abelhas,

manhã de Junho

tão cedo prometida às areias.

In: Ofício de Paciência (1994)

11
Out
10

Antes de saber

Até onde os dedos tocam o quente

do barro a mão sabe

antes de saber.

É um saber mais vivo, um saber

de ave: águia cegonha falcão,

animais quase no fim

como o lume destes dias.

Testemunhar a favor do lince

é nossa obrigação.

Por ser azul.

In: Ofício de Paciência (1994)

25
Maio
10

O inominável

Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido; nunca
ao nosso ouvido encostaste os lábios;
és o silêncio,
o duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.
Escutamos, bebemos o silêncio
nas próprias mãos
e nada nos une
– nem sequer sabemos se tens nome.

12
Abr
10

Ninguém cheira melhor

Ninguém cheira melhor

nestes dias

do que a terra molhada: é outono.

Talvez por isso a luz,

como quem gosta de falar

da sua vida, se demora à porta,

ou então passa as tardes à janela

confundindo o crepúsculo

com as ruínas

da cal mordida pelas silvas.

Quando se vai embora o pano desce

rapidamente.

02
Jan
10

Sobre o coração

Eras a casa, o lugar
onde o sol
ardia sobre a pedra,
a pedra sobre o mundo,
o mundo sobre o coração.
Como podias, uma
a uma, suportar as lágrimas
do mundo, ninguém sabia:
o lugar do sol
era a casa – e ardia.
26
Set
09

Num exemplar das Geórgicas

Os livros. A sua cálida,
terna, serena pele. Amorosa
companhia. Dispostos sempre
a partilhar o sol
das suas águas. Tão dóceis,
tão calados, tão leais.
Tão luminosos na sua
branca e vegetal e cerrada
melancolia. Amados
como nenhuns outros companheiros
da alma. Tão musicais
no fluvial e transbordante
ardor de cada dia.
02
Set
09

Casa do mundo

A diminuta
flor da candeia,
na mesa o pão o vinho
a rosa,
a súbita brancura da cama aberta –
a eternidade
milimetricamente
a dividir contigo.



"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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