Archive for the 'Rente ao Dizer (1992)' Category

11
Maio
15

A outra morada

É de Shumann, a música.

Dói, acalma, é transparência

última da rosa, a de Dante

no Paraíso;

não há outra morada,

outro cristal, outra ave;

há somente esse rio, esse gume

que fere, apazigua,

o corpo, a alma – quem sabe?

In: Rente ao Dizer (1992)

20
Fev
12

Sobre as sílabas

O assédio do verão, as rolas

dos pinheiros, a risca de sal

das areias; às vezes

chovia – então um barco

de borco era o abrigo,

era o amigo; a chuva abria

o aroma dos fenos, não tardava

o sol em cada sílaba.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

04
Jul
11

Variação sobre um tema antigo

Vem de tão longe que tenho piedade

dos seus cães: abro a porta, aceito

a festa dos animais.

Aproximou as mãos do fogo

e encontrou a flauta, levou-a

à boca: então o silêncio brilhou

acariciado.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

16
Jan
11

A um lodão da minha rua

Ninguém tem corpo mais fino,

nem braços tão delicados

como este lodão

crescendo com vigor à minha porta.

Tenho com ele desvelos de namorado,

limpo-o de ervas daninhas,

rego-lhe a terra ao calor de Agosto,

alegro-me a cada rebento novo,

cada folha recente. Cresce e cresce

em esplendor, certo de ser amado.

In: Rente ao Dizer (1992)

20
Out
10

O olhar

Eu sentia os seus olhos beber os meus;

longamente bebiam, bebiam;

bebiam

até não me restar nas órbitas nenhuma

luz, nenhuma água,

nem sequer o sinal de neles ter chovido

naquele inverno.

In: Rente ao Dizer (1992)

27
Jul
10

Dunas

É o mar do deserto, ondulação

sem fim das dunas,

onde dormir, onde estender o corpo

sobre outro corpo, o peito vasto,

as pernas finas, longas,

as nádegas rijas, colinas

sucessivas onde o vento

demora os dedos, e as cabras

passam, e o pastor

sonha oásis perto,

e o verde das palmeiras se levanta

até à nossa boca, até à nossa alma

com sede de outras dunas,

onde o corpo do amor

seja por fim um gole de água.

07
Jun
10

À boca do poço

Às vezes, até a morte pode ser

condescendente: à boca do poço

pára o cavalo, não chega a desmontar,

mas consente que te demores

a contemplar as águas negras,

o rebanho dos chocalhos distantes,

as macieiras perto,

os seus frutos estranhamente acesos.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
S T Q Q S S D
« Jan    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 138,168 hits