Archive for the 'Sal da Língua (1995)' Category

15
Maio
15

O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal

deserto; que nem casa fosse;

só um lugar

onde o lume foi aceso, e à sua roda

se sentou a alegria; e aqueceu

as mãos; e partiu porque tinha

um destino; coisa simples

e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir

ao vento, ao rigor da invernia,

e certa manhã sentir os passos

de abril

ou, quem sabe?, a floração

dos ramos, que pareciam

secos, e de novo estremecem

com o repentino canto da cotovia.

In: Sal da Língua (1995)

01
Jan
12

O verão é assim

O verão é assim: a masculina e mineral

e quase táctil vibração das cigarras.

Não sou apenas eu, também elas

se alimentam de claridade,

fogem do escuro.

Porque o escuro é onde se abrigam

a calúnia e a usura,

o escuro é onde a vaidade

e a demência do lucro acorrem

ao apelo do mais rasteiro.

O Céu não passa de um imenso

e vazio buraco negro,

mas tenho a esperança que o Inferno

conserve ainda activas as fogueiras

da inquisição, e nas suas chamas

possam ouvir-se um dia

esses cães, que tanto abusam do poder,

rechinar – como as cigarras no verão.


In: Sal da Língua (1995)

02
Fev
11

Coda

Quando o ser da luz for

o ser da palavra,

no seu centro arder

e subir com a chama

(ou baixar à água)

então estarei em casa.

In: Sal da Língua (1995)

02
Maio
10

No meu desejo

Tem dó de quem não dorme,
de quem passa a noite à espera
que desperte o silêncio.
O vento devia cantar nos plátanos
com a lua nova, ser mais uma folha
feliz nos ombros do outono.
Mas o vento parecia ter endoidecido:
de leste a oeste varria
a rua, varria a noite: o vento
alegremente
varria o mundo ― em turbilhão
arrastava o lixo mil vezes imundo.
E o sono chegava.

08
Nov
09

Estou aqui

Estou aqui sentado – ali o mar,
 as palmeiras.
O leite fresco, o pão na mesa.
O gesto sempre igual
da luz, o mesmo olhar da ave.
Existe uma secreta harmonia
entre a luz e o mar,
a mesma provavelmente
entre a palmeira e a ave,
o leite e o pão.
E com a palavra, o seu
voo a prumo,
com a palavra qual é a relação?
18
Out
09

Sempre a água

Sempre a água me cantou nas telhas.
Habito onde as suas bicas,
as suas bocas jorram.
As palavras que no cântaro
a noite recolhe e bebe
com agrado
sabem a terra por serem minhas.
Não sou daqui e não vos devo
nada, ninguém
poderá negar a evidência
de ser chama ou água,
fluir em lugar de ser pedra.
Perdoai-me a transparência.
05
Jun
09

Talvez

Talvez nem tenha nome.
Anunciado só pelo frémito
da folhagem.
O riso invisível, o grito
de um pássaro, o escuro
da voz. Certa doçura,
certa violência.
O espesso, volúvel
tecido da noite agora a roçar
o corpo da água. E por fim
a muito lenta paixão
do fogo, sufocada.
Era o verão.
18
Maio
09

Não sei

Não sei porque diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.
É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das fohas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.
11
Mar
09

Cada coisa

Cada coisa tem o seu fulgor,

a sua música.

Na laranja madura canta o sol,

na neve o melro azul.

Não só as coisas,

os próprios animais

brilham de uma luz acariciada;

quando o inverno

se aproxima dos seus olhos

a transparência das estrelas

torna-se fonte da sua respiração.

Só isso faz

com que durem ainda.

Assim o coração.

16
Jan
09

A poesia não vai

A poesia não vai à missa,

não obedece ao sino da paróquia,

prefere atiçar os seus cães

às pernas de deus e dos cobradores

de impostos.

Língua de fogo do não,

caminho estreito

e surdo da abdicação, a poesia

é uma espécie de animal

no escuro recusando a mão

que o chama.

Animal solitário, às vezes

irónico, às vezes amável,

quase sempre paciente e sem piedade.

A poesia adora

andar descalça nas areias do verão.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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