Archive for the 'À Sombra da Memória (1993)' Category

22
Set
11

Ver e dar a ver

Ele era o que sabia sem ter ar de saber. Ao contrário de Almada, Pomar ou Lanhas, Resende deixa que o pincel ou o lápis pensem por ele. Avesso a especulações, a pintura atravessa-lhe o corpo todo: era um parente natural de Goya, que Resende, quando jovem, copiará aplicadamente no Prado, numa aprendizagem do ofício, paciente e humilde. A tal mestre será fiel toda a vida; a prová-lo aí está essa cópia, que é dos raros óleos emoldurados nas paredes de sua casa – esta casa que o Carlos Loureiro lhe fez, como fato por medida, ali no Gramido, em cima do Douro, tão discreta e oculta pelo arvoredo que não se dá por ela senão quando já nos encontramos no seu interior, e cujo estreito corredor conduz directamente ao atelier, recebendo a luz das ramagens altas do sol através da grande vidraça, que é toda a parede do fundo. Isolado do resto da casa; há mesmo ali uma escada estreita que leva a uma pequena câmara com divã e mesa de trabalho. É neste isolamento, rodeado de telas vazias encostadas à parede, e uma mais pequena no cavalete com sinais doutra aventura ter começado, e livros, discos, tintas, revistas, e os mais inesperados objectos – máscaras africanas, instrumentos musicais brasileiros, amostras de terra trazidas das viagens – que o podeis encontrar todos os dias, mesmo aos sábados, e domingos, e dias santos de guarda, a trabalhar desde que o sol rompe até quase se extinguir na vidraça. Falta-me dizer que nas paredes, além de cartazes de exposições suas, há alguns retratos: um de Picasso e mais de meia dúzia do Daniel, o seu neto, como notas musicais em crescendo. Vestindo calças de bombazina e camisola, ambas desajustadas, é uma presença discreta, de uma serenidade que os cabelos brancos acentuam, com alguma juventude ainda a refugiar-se no sorriso um nadinha irónico, um olhar que não foge nunca ao espírito inquisitivo doutro olhar. Está agora sentado numa cadeira de verga, o cachimbo acabado de acender, os olhos fixos no trabalho do cavalete; de repente levanta-se, larga o cachimbo, pega no pincel, esquece-se do tempo, sem saber de ciência certa onde é que a sua energia e o sortilégio das cores o poderão levar. Volta a sentar-se, dá uma olhadela ao quadro e, mais tranquilo, escolhe um disco; durante alguns compassos abandona-se à Viagem de Inverno. No atelier a luz é fina e doirada, como se fora Rembrandt a fazê-la. A pensar num e noutro, em Rembrandt e em Shubert, porque a ambos amava, Resende pega no bloco, na mina de carvão, e abandona-se ao que o instante tem de doçura leve e transparente, no fim de tarde daquele verão. Uma linha começa a dançar na página branca; sem qualquer hesitação, a mão segue-lhe o rasto, é agora uma figura aérea que baila, vai, vem, corre, arrasta com ela uma poeira de oiro fremente, porque, como já sabemos, era verão. Toda a energia humana se concentra naquela perseguição do tempo, ou antes, numa íntima fracção de tempo, milimetricamente calibrado. Entre aquelas paredes tudo foi perdendo sentido, a ponto de o pintor já não saber se está a sonhar ou, como no conto Borges, a ser sonhado. Porque é da irrealidade do real e da realidade da imaginação que estas linhas, traçadas por mão conhecedora, nos falam. E continuarão a falar.

Chegado aos setenta, qualquer artista já acumulou sofrimento que baste para entrar no paraíso. E mais do que isso: já teve muita ocasião de transformar o sofrimento em alegria – porque é alegria o que toda a arte nos comunica, mesmo das funduras da tristeza. “Eu quero fazer milagres”, dizia Leonardo da Vinci; e nunca fez outra coisa. Resende chegou a essa idade em que a sabedoria de confunde com a indiferença pelas coisas do mundo, atento apenas ao seu trabalho, e a palavra tem aqui uma carga explosiva: significa paixão. Paixão em exprimir essa coisa tão simples e tão exaltante: estar vivo sobre a terra, responder à luz com a luz, à cor com a cor, ao olhar com o olhar. Dizer numa simples linha o que pensam os seus olhos, é a tarefa do pintor. Louvemos, em tempo de catástrofe e de cólera, o que nos resta de limpo sobre a terra – parecem dizer-nos estes traços, estas cores – louvemos a terra e as suas criaturas. Cada artista é assim uma espécie de S. Francisco cantando, por sua conta e risco, um hino à criação. “Cantar é ser”, diz o poeta dos Sonetos a Orfeu, e ser é “expor-se, na nudez mais completa, só e sem amparo”, diz por sua vez o nosso pintor. Só e sem amparo, é verdade. E contudo, é dessa solidão que nasce esta maravilha que temos na mão: numa folha de escassos centímetros quadrados surgem dois ou três acordes cromáticos, duas ou três casas baixas, como as da minha infância, uma delas cor de rosa, a outra cor de trigo, e uma árvore de um verde mediterrâneo; à sua roda respira-se melhor, há no ar uma música subtil, ascencional, e tudo é leve, tudo é bom.

Aos setenta anos um homem começa a arrumar a casa, a limpar as gavetas, a rasgar apontamentos, a queimar fotografias que beijava em horas juvenis. Surpreendi o meu amigo numa dessas tarefas; confesso que não é divertido. De um massacre mais recente escaparam cerca de mil desenhos. Uma parte significativa deles encontra-se aqui. São muitos anos dedicados ao ofício, a mão cega procurando iluminar as funduras da alma, ou esforçando-se, com o tempo, a esquecer o que foi aprendendo.

Já se sabe como o desenho é fundamental na obra de qualquer pintor. Klee considerava-o a pedra de toque de toda a expressão plástica, e não ignoramos a importância que Leonardo lhe atribuía. Alguns destes desenhos são coisas acabadas, sem relação nenhuma com os quadros; outros serão estudos para futuras pinturas; outros ainda são improvisações, uma maneira de a mão tactear no escuro, ou simplesmente repousar. Desenhos à pena, a lápis, a carvão, aguarelas, pastel, técnica mista, uma ou outra aguarela. Uns feitos d’après nature, outros de imaginação. A figura humana, alguns animais, uma ou outra planta, mais raramente uma paisagem – talvez neste inventário se encontrem as suas obsessões. Mas a figura humana, muito mais no seu aspecto grotesco e infeliz do que no seu esplendor, é nos desenhos, e em toda a sua obra, predominante. Curiosamente, Resende parece contrariar a ideia de Adorno, segundo a qual às obras tardias, estaria reservado o papel de representarem as catástrofes. Ele pensa-o a propósito de Beethoven, mas poderia ter invocado a pintura de Goya, de Klee, de Miró (e acrescentando outro exemplo musical, os últimos quatro Quartetos para Cordas, de Chostakovitch, que Adorno não deve ter conhecido). Em Resende passa-se o contrário: quanto mais vai envelhecendo mais vital e solar se torna a sua arte. E ao mesmo tempo mais pueril. É então que a sua pintura deixa de falar e começa a cantar. É desse modo que se defende do peso do mundo.

 

In: À Sombra da Memória (1993)

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08
Maio
11

Fidelidade em Armando Alves

Ele veio da planície, como se sabe. Veio da ondulação das searas, ininterrupta, até quando não há vento. Só muitos, muitos anos depois descobrirá dentro de si outra ondulação – a do mar, agora a dois passos de casa. Mar que nos entra pela varanda com o verão, ou podemos encontrar à porta, como se nos esperasse para uma carícia. É esta a surpresa que nos traz hoje esta pintura – o mar, o mar, o mar, de vaga em vaga. À ondulação do trigo, de que ainda há vestígios em várias telas, sucedeu a ondulação da espuma. Os ocres queimados cederam o passo aos azuis gloriosos. Os amarelos sombrios abriram-se à rebentação da cal. Espuma ou esperma, tanto faz – estas golfadas têm um destino: emprenhar a terra.

Continuo a pintar o Alentejo, diz-me ele. Mas agora um Alentejo de água, digo-lhe eu. Gosto desta fidelidade. A força de um artista vem-lhe do conhecimento dos seus limites. E os limites do homem são os da sua paixão, essa desmesura. Ser homem resolutamente, exigia Kierkegaard, o Desesperado. Não é tarefa fácil. Com júbilo no coração ou com um corpo ferido aos ombros, ser homem é difícil. Fiel à sua paixão. Resolutamente. Paixão à terra, a este horizonte raso, ondulante, entrando em espasmos sucessivos pelo corpo do mundo; indiferente a esse perverso refinamento que é apenas comprazimento na inteligência, e suas ligações aos círculos do poder, ou do mercado, de tão funestos frutos. Paixão ao corpo, à irradiação do corpo, à sensualidade magnificente do corpo, que transforma as formas da vida, mesmo as mais humildes, em apetência de luz, de mais luz ainda, última súplica do olhar.

Um dia ele conhecerá outra ondulação, a do silêncio. E será a perfeição.

In: À sombra da memória (1993)

Armando Alves, Paisagem (2009) - Óleo sobre tela (45 cm x 50 cm)

29
Jun
10

O rio

Chega ao fim, o rio. Vem de longe só para morrer às mãos das vagas. Chega extenuado, o caminho é longo, nem sempre fácil, embora se demore muita vez a contemplar as margens, ora escarpadas, ora em socalcos verdes, entre oiro e carmim. Na foz esperam-no as gaivotas, mas sobre os seus flancos, onde o céu é mais fértil, as garças cinzentas seguem-no de perto – não sei dizer qual destas aves prefere para companhia. O que ele mais ama, sobre isso não tenho dúvidas, são aqueles álamos frios das terras de Sória, onde as suas águas são delgadas e jovens. Os álamos e a música que neles há, quando os anjos lhes acariciam as folhas, que tremem à sua aproximação. É com eles na alma, que se verga por fim o rio às águas salgadas da sua última morada.

25
Mar
09

Homenagem a Raul Brandão

O Sal da Língua agradece as mais de 10000 visitas e inaugura hoje a prosa de Eugénio neste espaço de todos.

 

Almocei no Cerco do Porto e como o dia estava bonito peguei no Miguel e fomos até à Foz. O miúdo nunca andara de eléctrico, além disso eu queria mostrar-lhe a casa onde nascera Raul Brandão e a Praia dos Ingleses, antes que as ondas a levassem. O Gil deixou-nos no Infante e viria esperar-nos lá para o fim da tarde. Como se no outono o mar já não merecesse o olhar de ninguém, o eléctrico ia quase vazio. Apontei ao Miguel o casario cigano de Miragaia, os estaleiros sonolentos de Massarelos, a Cantareira reduzida a um estendal de roupa ao sol, as gaivotas do Cabedelo, tão próximas e confiantes que terminaram por entrar num poema meu.

Descemos no Passeio Alegre; ali estava ainda a loja do Augusto onde se vendia, de fabrico caseiro, a mais perfumada compota de framboesas; aqui, a rua onde crescera o Raul Brandão, a casa onde nasceu, na qual ninguém poderia já escutar o murmúrio da bica de água ou ver o pessegueiro bravo florir encostado ao muro do quintal; por estes degraus sobe-se ao adro da igreja matriz, donde já não se avista o mundo porque o mundo cresceu desmesuradamente, mas onde podem contemplar-se uns plátanos formosíssimos, agora carregados de oiro velho. Por ruas estreitas e vielas, que se encontram ainda “a cem léguas do Porto e da vida” chega-se por fim, mesmo indo devagarinho, à Confeitaria da Foz, com o Miguel a aguentar-se bem nas pernas, apesar dos seus escassos seis anos.

A confeitaria onde eu e o Pascoaes tomávamos o café, não mudara só de nome, mudara também de aspecto, embora conservasse ao fundo algumas mesas junto às vidraças, por onde entrava o mar. Depois de nos sentarmos, comecei a falar do velho poeta ao Miguel. Não me parece que ele esteja muito atento.

Ó papi, qual é o maior, o Pascoaes ou o Fernando Pessoa?

Isso é uma pergunta que tem pouco sentido, Miguel. Um poeta, quando é grande, é sempre o maior para quem faz sua a poesia dele.

Mas qual achas que é o maior?

Bem, eu gosto mais do Pessoa. Não vale a pena dizer-te porquê, não saberia dizê-lo com palavras que tu entendesses.

O empregado serviu o café, o Sumol. Observo o pequeno enchendo escrupulosamente o copo.

Ó papi, tu gostavas que eu fosse como o Fernando Pessoa?

Não, filho; o que eu gostava era que fosses feliz.

Mas é que se eu fosse como o Fernando Pessoa não era feliz.

Ah, sobre isso não tenho dúvidas; ele também não o era, nem creio que estivesse preocupado com isso.

Calou-se; mas a pausa foi breve.

Tu sabes como é que eu era feliz?

Não, não faço ideia.

Fez outra pausa, mais breve.

Era feliz, se fosse como o Gomes.

Não respondi. Foi ele que insistiu:

Sabes quem é o Gomes?

Fingi uma ignorância maior do que na realidade tinha:

Deve ser…

Tu não sabes nada, papi! É o Bota de Oiro! Sabes o que é o Bota de Oiro?

Não me deu tempo de dizer sim ou não:

É o que mete mais golos.

Está bem Miguel, vamos ver o mar; deixa lá o Gomes e o Pessoa. O que importa é que venhas a ser tu próprio, não há outra maneira de ser feliz.

Peguei-lhe na mãozita, que se abandonou, confiante. Descemos à praia, soltou-se, correu pela areia. O mar era uma porção de brilhos, habitado, como estava, somente pela luz.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Outubro 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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