Posts Tagged ‘alegria

15
Maio
15

O lugar da casa

Uma casa que fosse um areal

deserto; que nem casa fosse;

só um lugar

onde o lume foi aceso, e à sua roda

se sentou a alegria; e aqueceu

as mãos; e partiu porque tinha

um destino; coisa simples

e pouca, mas destino:

crescer como árvore, resistir

ao vento, ao rigor da invernia,

e certa manhã sentir os passos

de abril

ou, quem sabe?, a floração

dos ramos, que pareciam

secos, e de novo estremecem

com o repentino canto da cotovia.

In: Sal da Língua (1995)

21
Abr
12

Elegia e destruição

Desse tempo em que se permanece criança

durante milhares de anos,

trouxe comigo um cheiro a resina;

trouxe também os juncos vermelhos

que ladeiam a orla do silêncio,

neste quarto, agora habitado pelo vento;

trouxe ainda um olhar húmido

onde os pássaros perpetuam o céu.

 

Dificilmente esqueço a rua onde encontrei

os teus olhos imensos, fascinados

pelo fulgor secreto das espadas,

a casa onde te contei, de mãos trémulas,

a parábola do pão e do vinho,

dando a cada palavra um rosto novo.

 

A cidade onde te amei foi decepada

e não posso abolir as sentinelas do medo.

Mas também não posso deixar de te querer

com beijos e relâmpagos,

com sonhos que tropeçam nas paredes

e se alimentam de terror e de alegria,

enquanto o tempo persiste em soluçar.

 

Que me quereis verdes sombras da lua

na minha cama onde adormece o frio?

Aqui estou, mais alto do que o trigo,

sangrando nas pétalas do dia

e sem receio de que aos nossos gritos

ainda chamem brisa.

 

In: As Palavras Interditas (1951)

13
Fev
11

Luz recente

Respiras com cautela a luz

recente.

Deve ter acordado: canta.

Anos e anos adormecida

no fundo da pupila.

Já nem te lembravas

que fora assim tão jovem

e tinha

o nome da alegria.

Agora canta. Canta

em surdina.

In: Os Lugares do Lume (1998)

02
Abr
09

À tua sombra

A terra me sabes,

à luz das manhãs

lisas de verão,

ao calor das pedras

achadas nas dunas.

Apetece cantar

nos gomos, nas luas,

nas colinas breves

do teu corpo nu;

cantar ou correr

na água, na seiva

dos ombros, dos braços,

no azul secreto

da concha das pernas.

Ó sabor eterno,

ó mortal sabor

das fontes da terra,

materno, solar

rumor de alegria:

apetece morrer,

morrer ou cantar.

24
Jan
09

Coração recente

Eras tu? Era o dia

acabado de nascer?

 

Que rosa abria? Rosa

ou ardor? Não seria

 

só desejo de ser

um travo de alegria?

 

Um fulgor? Um fluir?

Eras tu? Era o dia?




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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