Posts Tagged ‘areias

20
Fev
12

Sobre as sílabas

O assédio do verão, as rolas

dos pinheiros, a risca de sal

das areias; às vezes

chovia – então um barco

de borco era o abrigo,

era o amigo; a chuva abria

o aroma dos fenos, não tardava

o sol em cada sílaba.

 

In: Rente ao Dizer (1992)

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17
Abr
11

Agora regresso à tua claridade

Agora regresso à tua claridade.

Reconheço o teu corpo, arquitectura

de terra ardente e lua inviolada,

flutuando sem limite na espessura

da noite cheirando a madrugada.

 

Acordaste na aurora, a boca rumorosa

dum desejo confuso de açucenas;

rosa aberta na brisa ou nas areias,

alta e branca, branca apenas,

e mar ao fundo, o mar das minhas veias.

 

Estás de pé na orla dos meus versos

ainda quente dos beijos que te dei;

tão jovem, e mais que jovem, sem mágoa

– como no tempo em que tinha medo

que tropeçasses numa gota de água.

In: As palavras interditas (1951)

13
Mar
11

Coisas mudáveis

De tão luminosa, essa ferida

já nem dói – ó tão mudáveis

coisas vindas

na palavra, sucessiva

ondulação do mundo

latindo contra o coração,

vagas de sombra ou só de pedra,

 canção despedaçada

contra os vidros, fulva

vagabundagem de abelhas,

manhã de Junho

tão cedo prometida às areias.

In: Ofício de Paciência (1994)

11
Mar
10

Homenagem a Mark Rothko

Amarelo, laranja, limão,

depois o carmim: tudo arde

nas areias

entre as palmeiras e o mar – era verão.

Mas no lugar do teu nome

a terra tem a cor do verde

pensativo, que só a noite

pastoreia leve.

02
Fev
09

Canção do passeio alegre

No inverno o vento está como deus

em toda a parte: na cabeleira

verde dos cometas, no extenso

e turbulento sono dos rapazes,

nos cegos fundamentos da alegria.

Peço-lhe que tenha piedade,

que seja amável com os que não dormem

debaixo de telha, que sorria a quem

regressa a casa a desoras – a boca

amarga do fremento da tristeza.

À semelhança de deus, o vento

dança indiferente nas areias.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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