Posts Tagged ‘aves

05
Jan
11

Em louvor do fogo

Um dia chega

de extrema doçura:

tudo arde

Arde a luz

nos vidros da ternura.

As aves

no branco

labirinto da cal.

As palavras ardem,

a púrpura das naves.

O vento,

onde tenho casa

à beira do outono.

O limoeiro, as colinas.

Tudo arde

na extrema e lenta

doçura da tarde.

In: Obscuro Domínio (1972)

23
Jun
10

Somos folhas breves onde dormem

Somos folhas breves onde dormem

aves de sombra e solidão.

Somos só folhas e o seu rumor.

Inseguros, incapazes de ser flor,

até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos

Cada ave se transforma noutro ser.

01
Fev
10

Da cor do feno, as tuas mãos completas

Da cor do feno, as tuas mãos completas
erguem-se abertas e pedindo
a não sei que deus o seu destino
de cavalo indomável como um rio;
suspensas, as aves bebem o teu grito
e ficam cegas a tremer de frio.
10
Maio
09

Nos teus dedos nasceram horizontes

Nos teus dedos nasceram horizontes
e aves verdes vieram desvairadas
beber neles julgando serem fontes.
03
Maio
09

Vacilantes perdem-se agora os dedos

Vacilantes perdem-se agora os dedos,
o mar é longe, vai-se a voz quebrando,
para morrer vai sendo tarde.
 
Não duvides: sou essa árvore,
essa alegria só prometida às aves.
31
Jan
09

Poema à mãe

No mais fundo de ti

eu sei que te traí, mãe.

 

Tudo porque já não sou

o menino adormecido

no fundo dos teus olhos.

 

Tudo porque ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais.

 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

 

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura.

 

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos.

 

Mas tu esqueceste muita coisa;

esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

 

Olha – queres ouvir-me? –

Às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;

 

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;

 

Ainda oiço a tua voz:

era uma vez uma princesa

no meio do laranjal…

 

Mas – tu sabes – a noite é enorme,

e todo o meu corpo cresceu.

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

 

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

 

19
Jan
09

Agora as aves voltam

Agora as aves voltam, são nos ramos

altos a matéria

mais próxima dos anjos

– ousarei eu tocar-lhes,

fazer delas o poema?

 

Feliz aniversário Eugénio!




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
Agosto 2017
S T Q Q S S D
« Jan    
 123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
28293031  
“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

Blog Stats

  • 138,168 hits