Posts Tagged ‘boca

24
Ago
14

Tarde ferida

Que mar a pique

ou luz,

ausente e quente,

na boca tão intensa

que fere a tarde?

 

In: Coração do dia (1958)

25
Jul
12

Plenamente

A boca,

 

onde o fogo

de um verão

muito antigo

 

cintila,

 

a boca espera

 

(que pode uma boca

esperar

senão outra boca?)

 

esperar o ardor

do vento

para ser ave,

 

e cantar.


In: Obscuro Domínio (1972)

28
Nov
11

Não perguntes

De onde vem? De que fonte

ou boca

ou pedra aberta?

É para ti que canta

ou simplesmente

para ninguém?

Que juventude

te morde ainda os lábios?

Que rumor de abelhas

te sobe à garganta?

Não perguntes, escuta:

é para ti que canta.


In: Mar de Setembro (1961)

04
Maio
09

Regressar ao corpo, entrar nele

Regressar ao corpo, entrar nele
sem receio da insurreição da carne.
Nenhuma boca é fria,
mesmo quando atravessou
o inverno. Uma boca é imortal
sobre outra boca: diamante
aceso, estrela aberta
quando a luz irrompe, invade
ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.
Despertos, puros no seu pulsar,
aí os tens: esplendorosos,
duros.
12
Abr
09

Aqui me tens, conivente com o sol

Aqui me tens, conivente com o sol

neste incêndio do corpo até ao fim:

as mãos tão ávidas no seu voo,

a boca que se esquece no teu peito

de envelhecer e sabe ainda recusar.

14
Mar
09

O pequeno sismo

Há um pequeno sismo em qualquer parte

ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca

lentamente

para não me desfolhares.

Tremo como se tivera

quinze anos e toda a terra

fosse leve.

Ó indizível primavera!

 

Notícias da Fundação:

Celebrando o Dia Mundial da Poesia, no próximo sábado, dia 21, pelas 18h30, estarão na Fundação Eugénio de Andrade para ler poemas inéditos, os seguintes poetas: Albano Martins, Fernando Guimarães, Eduarda Chiote, António Rebordão Navarro, Ana Luísa Amaral, Helga Moreira, José Emílio-Nelson, Rosa Alice Branco, Daniel Maia Pinto Rodrigues, João Luís Barreto Guimarães, Rui Lage.

A entrada é livre.

 

01
Mar
09

O olhar desprende-se, cai de maduro

O olhar desprende-se, cai de maduro.

Não sei que fazer de um olhar

que sobeja na árvore,

que fazer desse ardor

 

que sobra na boca,

no chão aguarda subir à nascente.

Não sei que destino é o da luz,

mas seja qual for

 

é o mesmo do olhar: há nele

uma poeira fraterna,

uma dor retardada, alguma sombra

fremente ainda

 

de calhandra assustada.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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