Posts Tagged ‘Canção

13
Mar
11

Coisas mudáveis

De tão luminosa, essa ferida

já nem dói – ó tão mudáveis

coisas vindas

na palavra, sucessiva

ondulação do mundo

latindo contra o coração,

vagas de sombra ou só de pedra,

 canção despedaçada

contra os vidros, fulva

vagabundagem de abelhas,

manhã de Junho

tão cedo prometida às areias.

In: Ofício de Paciência (1994)

09
Jul
09

Atrás da porta

Iluminados pela cor do trigo
os animais caminham para a única
estrela ao seu alcance:
 
a música do pastor, arte ou festa
da sua juventude: estrela
taciturna, talvez morta,
 
ou pão da nossa idade: cama
a dividir com o frio,
canção do vento atrás da porta.
15
Jun
09

O silêncio

Dai-me outro verão nem que seja
de rastos, um verão
onde sinta o rastejar
do silêncio,
a secura do silêncio,
a lâmina acerada do silêncio.
Dai-me outro verão nem que fique
à mercê da sede.
Para mais uma canção.
07
Maio
09

Dai-me um nome

Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.
 
Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,
 
chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.
 
Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar
possa entrar numa canção.
31
Mar
09

Canção para minha mãe

Uma mulher a cantar

de cabelo despenteado.

 

(Era o tempo das gaivotas

mas o mar tinha secado.)

 

Pelos seus braços caíam

frutos maduros de Outono,

 

pelas pernas escorriam

águas mornas de abandono.

 

(Uma criança juntava

o cabelo destrançado.)

 

Gaivotas não as havia

e o mar tinha secado.

29
Mar
09

A uma fonte

Fonte pura, fonte fria…

(Onde vais, minha canção?)

Fonte pura… assim queria

que fosse meu coração:

fluir na noite e no dia

sem se desprender do chão.

06
Nov
08

Canção de Leonoreta

Borboleta, borboleta,

flor do ar,

onde vais, que me não levas?

Onde vais tu, Leonoreta?

 

Vou ao rio, e tenho pressa,

não te ponhas no caminho.

Vou ver o jacarandá,

que já deve estar florido.

 

Leonoreta, Leonoreta,

que me não levas contigo.

04
Nov
08

Canção com gaivotas de bermeo

É março ou abril?

É um dia de sol

perto do mar,

é um dia

em que todo o meu sangue

é orvalho e carícia.

 

De que cor te vestiste?

De madrugada ou limão?

Que nuvens olhas, ou colinas

altas,

enquanto afastas o rosto

das palavras que escrevo

de pé, exigindo

o teu amor?

 

É um dia de maio?

É um dia em que tropeço

no ar

à procura do azul dos teus olhos,

em que a tua voz

dentro de mim pergunta,

insiste:

Se te fué la melancolia,

amigo mío del alma?

 

É junho? É setembro?

É um dia

em que estou carregado de ti

ou de frutos,

e tropeço na luz, como um cego,

a procurar-te.

27
Set
08

Canção desesperada

Nem os olhos sabem que dizer

a esta rosa de alegria,

aberta nas minhas mãos

ou nos cabelos do dia.

 

O que sonhei é só água,

água só, roxa de frio.

Nenhuma rosa cabe nesta mágoa.

Dai-me a sombra de um navio.

04
Jul
08

Onde me levas, rio que cantei

Onde me levas, rio que cantei,

esperança destes olhos que molhei

de pura solidão e desencanto?

Onde me levas?, que me custa tanto.

 

Não quero que conduzas ao silêncio

duma noite maior e mais completa,

com anjos tristes a medir os gestos

da hora mais contrária e mais secreta.

 

Deixa-me na terra de sabor amargo

como o coração dos frutos bravos,

pátria minha de fundos desenganos,

mas com sonhos, com prantos, com espasmos.

 

Canção, vai para além de quanto escrevo

e rasga esta sombra que me cerca.

Há outra face na vida transbordante:

que seja nessa face que me perca.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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