Posts Tagged ‘canto

10
Mar
11

Metamorfoses da palavra

A palavra nasceu:

nos lábios cintila.

 

Carícia ou aroma,

mal pousa nos dedos.

 

De ramo em ramo voa,

na luz se derrama.

 

A morte não existe:

tudo é canto ou chama.

 

In: Até Amanhã (1956)

19
Fev
11

Canto rouco

Antes que perca a memória

das pedras do adro,

antes do corpo ser

um só e quebrado

ramo sem água,

devolvei-me o canto

rouco

e desamparado

do harmónio na noite.

Mãe!,

desamparado na noite.

In: Coração do Dia (1958)

26
Nov
09

Cantas. E fica a vida suspensa.

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa o teu canto
o silêncio é todo meu.
17
Ago
09

Fim de verão

Talvez nem seja um tordo. Um pássaro
cantava. Seria o último
desse verão. A própria luz
 
não ajudava: não era barco
de manhã nem brisa ao fim da tarde.
Talvez o anjo do poema
 
pudesse em seu lugar subir aos ramos
e cantar. Mas os anjos
são tão distraídos! Deles não há
 
nada a esperar, a não ser fogo
de palha. Talvez nem seja um tordo.
O seu canto, só vibração do ar.
12
Fev
09

Canto firme

Desatar o silêncio,

 

ficar a vê-lo

escorrer na vidraça,

 

entrar na noite,

 

labirinto

onde perco a mão,

 

deixar o sangue

iluminar meu pulso

de terra ardente,

 

ser música ainda,

 

penetrar na

água da palha,

 

seca, dura,

 

no fogo raso

à beira do inverno,

 

procurar a pedra

onde dormir,

 

o estábulo morno

da confidência,

 

os olhos

onde o azul persiste,

 

única fonte,

 

espelho

por onde a sombra

entra devagar,

 

sentir o sangue,

o silêncio

 

arder…

26
Jan
09

Assim despido

Rosto despido, magra fonte

dos dias – assim começa a breve

fala que escuto

 

vinda de longe, assim o nome

desse cristal,

o tão amado e perdido

 

olhar; assim do prado branco

as águas de junho

ou de setembro descem ao mar;

 

assim as dunas onde as aves

pousam leve ou nos lábios

o canto arde;

 

assim a neve.

23
Jan
09

Soneto

Amor desta tarde que arrefeceu

as mãos e os olhos que te dei;

amor exacto, vivo, desenhado

a fogo, onde eu próprio me queimei;

 

amor que me destrói e destruiu

a fria arquitectura desta tarde

– só a ti canto, que nem eu já sei

outra forma de ser e de encontrar-me.

 

Só a ti canto que não há razão

para que o frio que me queima os olhos

me trespasse e me suba ao coração;

 

só a ti canto, que não há desastre

de onde não possa ainda erguer-me

para encontrar de novo a tua face.

05
Dez
08

Walt Whitman e os pássaros

Ao acordar lembrei-me de Peter Doyle. Deviam ser seis horas, na austrália em frente um pássaro cantava. Não vou jurar que cantasse em inglês, só os pássaros de Virgínia Woolf têm privilégios assim, mas o júbilo do meu pisco trouxe-me à memória a cotovia dos prados americanos e o rosto friorento do jovem irlandês, que naquele inverno Walt Whitman amou, sentado ao fundo da taberna, esfregando as mãos, junto ao calor do fogão. Abri a janela, na escassa claridade que se aproximava procurei, em vão, a delícia sem mácula que me despertara. Mas de repente, uma, duas, três vezes, ouviram-se uns trinadinhos molhados, a indicar-me um sopro de penas que mal se distinguia da folhagem. Então, invocando antiquíssimas metáforas do canto, peguei no livro venerando que tinha à mão e, de estrofe em estrofe, fui abrindo as represas às águas do ser, como quem se prepara para voar.




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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