Posts Tagged ‘cardos

12
Jun
13

Labirinto ou Alguns Lugares do Amor

O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo


e é branco.

In: Véspera de Água (1973)

31
Maio
11

Cardos

Este é o lugar onde só o lume

não demora a florir,

onde o verão abdica

de ser metáfora para arder

até ao fim.

 

In: O Outro Nome da Terra (1988)

15
Jan
09

A música

De alma e coração ainda mareados por gentes e terras que marcaram estas últimas semanas, regresso ao sal da nossa língua para desejar a todos um 2009 cheio de motivos para sorrir e de sorrisos sem motivo!

 

 

Álamos —

música

de matutina cal.

 

Doces vogais

de sombra e água

num verão de fulvos

lentos animais.

 

Calhandra matinal

no ar

feliz de junho.

 

Acidulada

música de cardos.

 

Música do fogo

em redor dos lábios.

 

Desatada

à roda da cintura.

 

Entre as pernas,

junta.

 

Música

das primeiras chuvas

sobre o feno.

 

Só aroma.

Abelha de água.

 

Regaço

onde o lume breve

de uma romã brilha.

 

Música, levai-me:

 

Onde estão as barcas?

Onde são as ilhas?

 

Notícias da Fundação:

Na passagem do 86º aniversário do nascimento de Eugénio de Andrade, a Fundação que tem o seu nome fará na próxima segunda-feira, dia 19, pelas 18h30, o lançamento de uma nova edição de À Sombra da Memória. Na sessão de lançamento o Dr. António Oliveira fará a apresentação do livro, para o qual Gonçalo M. Tavares escreveu um texto original, que será lido, assim como outros textos de Eugénio de Andrade.

A entrada é livre.

 

 

 

 

 




"Poupar o coração é permitir à morte coroar-se de alegria." Eugénio de Andrade
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“Sobre Eugénio sobra-me em emoção e lágrimas o que escasseia em palavras. Não há claridade que te descreva, meu querido Eugénio. És o meu poeta de ontem e de sempre. Mantinha um desejo secreto de te conhecer um dia, passar uma tarde contigo de manta nas pernas a afagar os gatos que tanto amavas. Em silêncio, sim, pois sempre foi em silêncio que me disseste tudo ao longo destes anos todos em que devorei as tuas palavras. Tu não poupaste o coração e por isso viverás sempre. Não há morte que resista a isso.” Raquel Agra (13/06/2005)

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